47 HAICAI – O JAPÃO NO FEMININO – TANKA

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Ono no Komachi,  Utagawa Toyokuni, 1810. Fonte: Museum of Fine Arts.

O  período Heian  (794 a 1185) começou quando a capital japonesa foi instalada em Quioto, e é marcado por um florescimento ímpar na  literatura japonesa. As mulheres da corte, que tinham como ofício entreter a imperatriz, são as principais responsáveis por este florescimento. Os homens  estavam ocupados em dominar conhecimentos sobre a língua chinesa e estudavam temas nobres, como a história e filosofia.  As mulheres, impedidas de aprender os ideogramas chineses, propagaram a escrita silábica (hiragana), escrevendo sobre  literatura e poesia, explorando temas como o amor, a natureza e a religiosidade.

Assim surgiu o romance O conto de Genji (Genji monogatari), escrito por Lady Murasaki Shikibu e O livro do travesseiro (Makura no sôushi), escrito por Sei Shônagon, considerados os dois maiores clássicos da literatura japonesa.

Também neste período surgem  as duas maiores poetas clássicas: Ono no Komachi  (834 – ?) e Izumi Shikibu (974-1034). As duas escreveram numa época em que as mulheres cultivavam grande independência. Embora os privilégios fossem masculinos,  às solteiras era permitido ter vários namorados, inclusive com homens casados, desde que usassem a discrição. As casadas só podiam ter um marido, enquanto estes poderiam ter vários casos extraconjugais. A mulher podia ser proprietária de terras e usufruir de renda própria. Também podia divorciar-se e separar-se, independente da opinião familiar.

O domínio da escrita e da poesia era um fator de ascensão social. A arte  não era confinada aos aristas, mas partilhada por todos os membros da corte. Qualquer acontecimento público ou privado era acompanhado de versos. A poesia era o veículo essencial para ativar os relacionamentos amorosos. A forma poética usada nesta época era o tanka, com 31 sílabas. O haiku ainda era uma forma usada só pelos homens.

A pesquisadora Luísa Freire publicou, em 2007, versões para o português lusitano de uma tradução em inglês,  de Jane Hirshfield e Mariko Aratami – The Ink Dark Moon: love poems by Ono no Komachi and Izumi Shikibu .

ono no komachi

Quando o meu desejo
se torna intenso demais,
visto a roupa de dormir
virada pelo avesso,
escura casca da noite.

*

Pescador não deixa

a baía plena de algas…

Vais abandonar

este corpo flutuante

à espera das tuas mãos ?

*

O vento que enreda

É tal qual as derradeiras

Rajadas de Outono.

Só um orvalho de lágrimas

É novo na minha manga.

*

 

Hoje de manhã

Até as minhas campainhas

Estão escondidas

Para evitarem mostrar

O cabelo em desalinho

*

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Izumi Shikibu

Deitada e sozinha
de cabelo negro solto
e emaranhado,
sinto desejo daquele
que primeiro veio me tocar.

 *

Desperta pelo cheiro
duma ameixeira florida…
A escuridão
da noite primaveril
vem encher-me de saudade

*

Não fiques corado!
Todos adivinharão
Que dormimos juntos
Sob as pregas enrugadas
deste manto avermelhado

o japão no feminino – tanka  – séculos ix a xi e o japão no feminino – organização e tradução, luísa freire.assírio e alvim, 2007.

46 HAICAI -TANKA, UMA FORMA FEMININA

46haicaiimagem04No Japão existem formas poéticas distintas, que funcionam para determinados temas. A forma poética mais conhecida fora do Japão, o haicai (ou haikai ou haiku) tem como eixo temático uma das estações do ano, ou algum evento ou fenômeno natural que aconteça numa determinada estação do ano. Cerejeiras, por exemplo, estão relacionadas à primavera, crisântemos, ao outono, neve ao inverno e calor ao verão. Os eventos ou fenômenos naturais são pontos de partida para refletir sobre a efemeridade da vida. Assim, o estado wabi sabi (que vem das palavras wabishi = ermo, solitário e sabishi= triste) é a prerrogativa do poeta que se retira do tumulto das cidades para comungar com a natureza e nela encontrar a resposta para o sentido mais profundo da existência.

O tanka é a forma poética mais antiga no Japão, que deu origem ao haicai. O haicai ficou conhecido como uma forma que privilegia o olhar objetivo da vida . Já o tanka está relacionado a um olhar mais subjetivo. Duas grandes poetas japonesas da Era Heian, Ono no Komachi (834?-?) e Izumi Shikibu (974?-1034?) representam esta forma poética. Tanto as poetas quantos o tanka são poucos conhecidos no Ocidente. A razão talvez seja o fato de que o tanka privilegia o olhar feminino.

Os maiores poetas japoneses do tanka contemporâneo são Masaoka Shiki (também mestre de haiku), Akiko Yosano e Takuboku Ishikawa, estes dois últimos com pelo menos uma obra traduzida no Brasil. Ono Komachi, Izumi Shikibu e   o monge Saygio são os autores clássicos mais conhecidos. Uma curiosidade:  o hino nacional japonês Kimigayo também está vazado na forma poética do tanka. No Brasil, tivemos poetas que já se aventuraram a recriar tankas, como Pedro Xisto, Helena Kolody e Wilson Bueno, em molduras mais ou menos carnavalizadas.

A poeta Rose Mendes pesquisou sobre a poesia feminina no Japão e buscando aperfeiçoar a aprendizagem iniciada em seu primeiro livro “Nas ondas do haicai”,  lança agora, “Travessia” (Editora Inhouse, 2016). O que se vê neste seu mais novo rebento são exercícios livres em cinco versos . Aponta-se a ousadia desta “Travessia” do ocidente ao oriente. Porém, falta à autora iniciante  maior conhecimento sobre a linguagem poética, o que tornariam seus poemas menos superficiais.  Já experiências de vida não lhe faltam, tocando temas da maturidade:

mora às escuras / na árvore centenária / um ninho vazio / ah, não é um pirilampo / que tranquilamente surge

muito de repente / duas andorinhas entram/ na capela antiga / que saudades estou sentindo / dos sonhos divididos

névoa da manhã / o mar e a gaivota / brincam com o tempo / o barquinho que balança / parece acenar um adeus

notícias do mundo / trazem espanto e tristeza  -/ incerto futuro//meu pai falava da guerra / e quase sempre chorava

Para que seus tankas saiam do chão, resta à Rose apenas prestar mais atenção nas palavras. As experiências, a sensibilidade, a acuidade para observar os dramas psicológicos retratados na paisagem da vida ela já tem.

(Marilia Kubota)