32 KINEMA | O RECADO DE GODZILLA

Lanternas em Chinatown: advertência americana.
Lanternas em Chinatown: advertência americana. Imagem: divulgação.

Por Marilia Kubota

O novo “Godzilla”, de Gareth Edwards é coadjuvante em seu próprio filme, como afirmam as críticas ? Como em todo filme americano, a família está em primeiro plano, assim como a ação do herói.  Mesmo que as câmeras busquem iluminar os dramas familiares, a estrela do filme continua sendo o monstro. E é ele quem os espectadores esperam ver em ação. E o monstro só entra em ação quando luta com os  “mutos” . Estes também são monstros pre-históricos que crescem com a radiação nuclear.

O embate entre os monstros permite  ver  muito além da narrativa de aventuras.  O nome Godzilla é uma transliteração de  Gojira (ゴジラ?), uma combinação de duas palavras japonesa : gorira (ゴリラ?), que significa gorila, e kujira (鯨? or クジラ?), que significa baleia. Ou sea, Gojira seria uma mutação de gorila e baleia. Essa última representaria o lado aquático e  bulk do monstro.

A origem histórica de Godzilla são os testes nucleares do Atol de Biquini, acontecidos em 1954.  É o ano da aparição do mutante japonês nas telas. Os testes nucleares e um incidente com um navio pesqueiro japonês é que desencadeou o filme. Como  relembra Yushikuni Igarashi, em março de 1954, um navio pesqueiro de atum, o Daigo Fukuryûmaru (Lucky Dragon V), foi apanhado pela chuva de partículas radioativas de um dos testes, e todos os 23 tripulantes foram expostos à radiação. Notícias sobre o Lucky Dragon romperam o longo silêncio sobre o estado de guerra nuclear no Japão, um silêncio que foi imposto ao Japão ocupado pelas restrições da censura americana.

Em sua abertura, Gojira aludia ao  episódio e Gareth cita rapidamente o original. Para os que desconhecem a história do Japão ou de conflitos mundiais, a citação passa batida.  Alguns espectadores  se surpreendem porque a ação do filme se desloca de Tóquio para São Francisco.  Para os críticos mais atentos, tudo no filme  é intencional. Desde o fato de um dos thrillers divulgar as cenas em território americano e até por algumas dessas cenas de destruição se passar no bairro de Chinatown.

Os inimigos que lutam com Godzilla são uma espécie de louva-deus gigante. Esse inseto é um símbolo para as culturas japonesa, coreana e chinesa.  Culturas de países que têm se digladiado, nos últimos anos, por disputas de poder no Extremo Oriente. O fiel da balança  nas disputas políticas tem sido os Estados Unidos. Seu poderio atômico  tem mantido o equilíbrio político na região. Nessa leitura,  a nova versão de Godzilla não representa apenas as catástrofes naturais.   O monstro salva os Estados Unidos do ataque dos louva-deus gigante. Não à toa. As ogivas americanas estão sempre preparadas para serem lançadas consta os monstros que as desafiarem.

Nesse sentido, a história familiar,  o tsunâmi  são  dramas secundários. Godzilla continua sendo o monstro que representa o horror nuclear. Se para os japoneses é um trauma permanente, para os americanos é a garantia de supremacia política no cenário mundial.

Godzilla: o monstro nuclear a favor dos EUA.
Godzilla: o monstro nuclear a favor dos EUA.

Bibliografia consultada:  Igarashi, Yoshikuni. Corpos da memória. Annablume, 2011.

28 KINEMA | MOSTRA DE CINEMA NIKKEI : POLÍTICA

Okuhara filma Hidaka. Foto: divulgação.
Okuhara filma Hidaka. Foto: divulgação.

Na terça-feira (29), a MOSTRA DE CINEMA NIKKEI,  a ser exibida no Cine Guarani, no Portão Cultural, em Curitiba, apresenta dois documentários sobre a segunda fase da  imigração japonesa ao Brasil.  Depois dos primeiros anos  trabalhando nas lavouras de café no interior de São Paulo e do Paraná, muitos arrecadaram um pé-de-meia e mudaram para centros urbanos maiores. Foi o caso da maioria dos que foram se instalar na capital paulista. O documentário “Gamabarê ou Liberdade”, de José Carlos Lage, mostra apresenta  a história do maior ponto de concentração da comunidade nipo-brasileira, o bairro da Liberdade, em São Paulo,  principal ponto de referência comercial e de costumes orientais para a comunidade japonesa no Brasil.

José Carlos Lage é formado em Publicidade e Propaganda, com pós-graduação em comunicação e marketing pela ESPM. Em 1992,  trabalhou em Nova York ,  realizando videoclipes para artistas como: George Michael, Natalie Cole e Tonny Benett. Produziu e dirigiu filmes publicitários para as principais agências de São Paulo: DPZ, Peraltastrawberryfrog, Ogilvy, Sunset Comunicação entre outras Dirigiu os documentários Paulista(2003)  e Um dia de lobo (2005)..

Yami no ichi nichi

Nessa segunda fase da imigração, com o propósito inicial de “preservar os costumes e cultura japonesa”, foram criadas muitas associações de nipo-brasileiros. Se algumas tiveram como objetivo apenas o entretenimento, outras tiveram viés mais político, como foi o caso da Shindo Renmei – a Liga do Caminho dos Súditos. A organização ultranacionalista defendia que os japoneses não havia perdido a guerra –  eram os kachigum, os vitoristas –  e atacavam os que defendiam tese contrária  dos makegumi, os derrotistas.

O documentário Yami no ichi nichi, o crime que abalou a colônia japonesa no Brasil, de Mario Jun Okuhara, traz a versão da história  de Tokuichi Hidaka, que, em 1946, aos 19 anos de idade, foi um dos autores do assassinato do coronel Jinsaku Wakiyama, líder dos “derrotistas” em São Paulo. Hidaka entregou-se à polícia com o restante do grupo e cumpriu 15 anos de prisão. Em liberdade, sofreu a punição da colônia japonesa: foi discriminado, condenado ao ostracismo, sem oportunidade para contar a sua versão. Décadas mais tarde, Hidaka inicia uma busca por amigos e pessoas desse período para reconstruir a memória da época e encontrar o sentido da sua vida no Brasil. Nesta nova versão do documentário, integrantes da família Wakiyama falam do papel exercido por Jinsaku na comunidade nipo-brasileira paulista dos anos 1940 e expõem seu ponto de vista sobre os fatos.

Desdobramentos

O documentário de Okuhara ganha relevância, pois graças a ele, foram ouvidos depoimentos de nipo-brasileiros presos na Ilha de Anchieta, para onde foram levados os envolvidos com a Shindo Renmei. Os presos relataram casos de tortura e violação de direitos humanos.  A presidente da Comissão Nacional da Verdade, Rosa Cardoso, pediu desculpas pelo tratamento racista e detenção de vários membros da comunidade durante a segunda guerra , abrindo caminho para uma retratação pública oficial .

Não houve só presos por crimes,  também foram fichadas no Dops (Departamento de Ordem Pública e Social) e presas pessoas que apenas guardavam livros escritos em japonês, em casa, e agricultores foram expropriados de suas terras, no área costeira brasileira, acusados de ser espiões dos japoneses O governo também fechou escolas, proibiu jornais em língua japonesa e também qualquer tipo de reunião pública na comunidade.

O pedido de desculpas será encaminhado no relatório final da Comissão da Verdade ao governo brasileiro. Os imigrantes japoneses sofreram com os preconceitos desde que chegaram ao Brasil, em 1908. As restrições foram aumentando até culminar no verdadeiro estado de sítio imposto pelo Governo Vargas. Para  Okuhara, as desculpas da CNV são um marco histórico, o início do reconhecimento da violência sofrida pelos japoneses no Brasil.

28 KINEMA | PROGRAMAÇÃO DA MOSTRA DE CINEMA NIKKEI

Cena do filme "Haruo Ohara", de Rodrigo Grota.
Cena do filme “Haruo Ohara”, de Rodrigo Grota.

Começa na sexta-feira  (25) da próxima semana  a Mostra de Cinema Nikkei, no Cine Guarani, no Portão Cultural (Avenida República Argentina, 3430 – Curitiba), que tem entrada franca. Serão exibidos filmes dirigidos por cineastas brasileiros que exploram o tema da imigração japonesa ao Brasil e da questão da identidade dos nipo-brasileiros ou ainda, personagens de destaque da comunidade nipo-brasileira. O evento é promovido pelo MEMAI e apoiado pelo Consulado Geral do Japão e Fundação Cultural de Curitiba.

O cineasta londrinense Hikoma Udihara terá uma sessão especial, com filmes produzidos entre 1957 e 1959, registrando desde festas de nipo-brasileiros a cerimônias oficiais. Artistas que conseguiram projeção nacional, como o fotógrafo londrinense Haruo Ohara, o animador Ypê Nakashima, o quadrinista Claudio Seto e a pintora Tomie Ohtake são personagens de filmes; o HQ também tem espaço  : Piconzé, realizado por Ypê Nakashima, e  O Ovo e a Galinha, de Tako-x.  E não poderiam faltar obras que tratam da questão da identidade nikkei, como Ou est Le soleil (Onde está o sol), da francesa  Claire Sophie Dagnan, e Permanência, de Hélio Ishii, ou retratam comunidades consolidadas, como as do bairro da Liberdade, em Gambarê, de José Carlos Lage.
Outra curiosidade da programação é Yami no ichi nichi, de Mario Jun Okuhara, que traz o depoimento de Tokuichi Hidaka, o assassino do Coronel Jinsaku Wakiyama, comandante da Shindo Renmei. O filme ganha relevância porque seu protagonista, Hidaka, de 87 anos, depôs na Comissão Nacional da Verdade, no dia 10, comprovando os casos de tortura e violência aos direitos humanos no Presídio da Ilha de Anchieta, em São Paulo,  para onde foram mandados os “vitoristas” e “derrotistas” envolvidos com organizações ultranacionalistas japonesas.
PROGRAMAÇÃO – Sessões às 20 horas, entrada franca
25, sexta-feira
Curtas Contemporâneos
Retratos de Hideko (10 min.), Olga Futema, 1981 .Chá verde e arroz (10 min.),1988. Haruo Ohara, Rodrigo Grota. (16 min.), 2010, Satori Uso, Rodrigo Grota (17 min.), 2007. O Samurai de Curitiba, Roberval Machado e José Padilha. (20 min.) , 2010. O Gralha, Tako x (20 min), 2002.
26, sábado Memória HIKOMA UDIHARA
Cenas do acervo do cineasta londrinense Hikoma Udihara, preservadas pela Cinemateca Brasileira e restauradas pelo pesquisador Caio Cesaro.
27, domingo
HQ Piconzé, (80 min.)m 1972, Ypê Nakashima  ( 60 min), Hélio Ishii, 2009.
28, segunda
Não há sessão.
29,  terça Nikkei
Gambarê, (52 min.) de José Carlos Lage, 2005. Yami no ichi nichi, ( 80 min) . Mario Jun Okuhara, 2012.
30, quarta Trânsitos
Permanência (60 min). Hélio Ishii, 2006, Ou est Le soleil (52 min). Claire Sophie Dagnan,  2011.
31, quinta Arte
À flor da pele  (52 min), de Bettina Turner, 2002, Tomie Ohtake ( 67 min.), 2003.

NOTÍCIA | CICLO DE CINEMA JAPONÊS

"Céu e inferno", de Akira Kurosawa.
“Céu e inferno”, de Akira Kurosawa.

No mês de setembro, o Cineclube Sesi traz filmes do Cinema Japonês,  contemplando obras  realizadas durante as décadas de 60 e 70 , de autores com estilos bem diversos: Akira Kurosawa, Kaneto Shindo  Masaharu Shinoda e Shunya Ito.  Enquanto Kurosawa discute o Japão do pós-guerra, Shindo  e Shinoda exploram o feudalismo e Ito parodia  os clichês da contemporaneidade.

Programação:
Dia 05/09 – “Céu e Inferno” de Akira Kurosawa
Dia 12/09 – “Onibaba” de Kaneto Shindô
Dia 19/09 – “Duplo suicídio em Amijima” de Masahiro Shinoda
Dia 26/09 – “Female convict scorpion jailhouse” de Shunya Ito
Local: Sala Multiartes do Centro Cultural da FIEP – Avenida Cândido de Abreu, 200 – Centro Cívico – Curitiba

25 KINEMA | FILME SOBRE ZEN E UMA BRASILEIRA NO JAPÃO

Cena do filme Zen. Foto: divulgação.
Cena do filme Zen. Foto: divulgação.

Nessa sexta-feira (23), em Curitiba, duas oportunidades para os amantes decinema e da cultura japonesa aproximar-se mais de suas paixões. Na Praça do Japão,  a Comunidade Zen-budista de Curitiba exibe o filme Zen, de Banmei Takahashi. E o Grupo Psicanalítico de Curitiba promove uma exibição do filme argentino, Um conto chinês, de Sebastián Borensztein, em que a socióloga Maria Cristina Fukushima falará sobre sua experiência como estrangeira no Japão.

 Zen , Banmei Takahashi, 2009, 127 min. Praça do Japão, 20h30 min. Ingresso; 5. O filme   conta  a história do mestre  japonês Eihei Dogen Zenji (1200-1253), o fundador da escola Soto no Japão. Dogen Zenji foi um grande filósofo,  cuja maior obra foi Shobogenzo, o Tesouro do Olho do Dharma Verdadeiro, uma coleção de 95  fascículos,  relacionados à prática budista e à iluminação. (O dinheiro obtido com a exibição do filme será usado para a compra de livros para a biblioteca municipal Hideo Handa, na Praça do Japão).  Mais informações sobre o filme aqui  e sobre  Dogen Zenji e a escola Soto Zen, aqui .

 Um conto chinês, Sebastián Borensztein, 2011, 93 min. Grupo Psicanalítico de Curitiba (Rua da Paz, 195), 18h10.  Narra a história do encontro, em Buenos Aires,  entre o imigrante chinês Jun e o  comerciante argentino Roberto, que tem a mania de colecionar notícias bizarras.  O comerciante, a contragosto, ajudará o chinês e no final, o espectador descobrirá o segredo de sua mania.  Logo depois da sessão,  às 20 horas haverá lançamento do livro Apontamentos Psicanalíticos, de Vera Marieta Fischer, seguido por um debate entre Vera Marieta Fischer e Maria Cristina Fukushima , especialista em Lingua Japonesa pela Universidade de Waseda, doutora em Letras pela USP, com a tese  sobre a visões do Japão em Lafcadio Hearn e Aluisio Azevedo. Mais informações sobre o núcleo  aqui.

24 KINEMA | A ERA NUCLEAR E A CURA PELO AMOR

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Os personagens Nevers e Hiroshima, em “Hiroshima, meu amor”, de Alain Resnais

Por Marilia Kubota

Não há, na memória da história do século 20, acontecimento mais traumático para a humanidade do que a explosão das duas bombas atômicas, em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, nos dias 6 e 9 de agosto de 1945. Até muito pouco tempo, documentários americanos reproduzidos à exaustão na tevê brasileira,  alusivos a data, enfatizavam  a construção das bombas, exaltando como os americanos conseguiram se antecipar aos alemães e obter os segredos da fissão nuclear. A destruição das duas cidades japonesas, que mataram instantaneamente 130 mil vítimas e tiveram mais 100 mil mortes devido à radiação nuclear ficava em segundo plano. Esses documentários justificavam os americanos lançarem as duas bombas, sob o argumento de que era o único modo de os japoneses se renderem.

Passados 68 anos, faz-se necessária a revisão desses argumentos. Deixando de lado a visão fundamentada em planos militares para o fim da Segunda Guerra Mundial, voltamos os olhos para os dramas humanos sofridos pelas vítimas da radiação nuclear.  Esses dramas foram reconstruídos algumas vezes em narrativas de ficção,  em filmes, no mangá e no animê. O prêmio Nobel  de Literatura em 1994, Kenzaburô Ôe,  publicou  Hiroshima Notes (HIroshima Noto)em 1965, e Masuji Ibuse, o romance Chuva Negra,  em 1966 – depois filmado por Shohei Imamura.

Na cultura pop, o tema do apocalipse nuclear também está presente. O monstro Godzilla é o primeiro dos antiheróis que personifica o terror da destruição em massa. Criado por Inoshiro Honda, em 1954, Gojira aparece destruindo o Japão em três filmes:  Godzilla (Gojira,  1954). Godzilla ataca de novo (Gojira no Gyakushu, de Motoyoshi Oda, 1955). Godzilla, rei dos monstros(Kaiju-ô Gojira, 1956). E a devastação nuclear também é tematizada em mangás e animês, como em Gen pés descalços ( Hadashi no Gen), de Keiji Nagasawa  e  Cemitério de Vagalumes ( Hotaru no Haka), de Taro Hyugaji

No cinema, o apocalipse nuclear é tema de Akira Kurosawa em três filmes: em  Anatomia do medo (Ikimono no Kiroku, 1955), em dois episódios de Sonhos (Yume, 1990) e em Rapsódia de Agosto (Hachi-gatsu no Kyoshikyoku, 1991). Kurosawa cura-se das feridas da guerra, ainda  abertas em Anatomia do medo em Sonhos e cicatrizada em Rapsódia de Agosto.   Já o cineasta francês Alain Resnais, a quem o governo japonês  encomendou  um documentário sobre Hiroshima, realizou uma narrativa com uma análise psicanalítica em      Hiroshima mon amour,   misturando fato e ficção, ainda em 1959. O roteiro é da escritora Marguerite Duras.

  Chuva Negra e Hiroshima mon amour

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Cena de “Chuva negra”, de Shohei Imamura.

A narrativa de ficção literária se distingue da  visão macroscópica da historiografia por iluminar vidas de pessoas  comuns. Protagonistas de romances não são os que se tornaram os heróis dos relatos oficiais, mas personagens com os quais pessoas comuns se identificam . O romance Chuva negra, de Masuji Ibuse relata o drama de uma jovem afetada pela radiação nuclear que não consegue se casar por conta de seu contágio. A narração é feita através do discurso indireto (narrador em terceira pessoa) e também através das páginas do diário do tio da jovem,  o que torna o relato mais verossímil, aumentando as chances de o leitor se identificar com o drama. Leia a resenha publicada aqui, no MEMAI.

Uma das mais contundentes ficções sobre a era nuclear não é japonesa. Hiroshima mon amour conta   a história de um casal de amantes, uma atriz francesa e um arquiteto japonês que se encontram em Hiroshima. Ela o conheceu numa filmagem, em período pós-guerra. A  atriz visita  lugares que os turistas consideram sagrados, como o hospital onde as vítimas da bomba atômica foram tratadas e o Memorial de Hiroshima. Reverencia documentos da  destruição e  pilhas de cabelo que caíram de cabeças de mulheres quando acordaram no dia seguinte à explosão,  peles que descolaram dos corpos pelo calor das chamas e fotografias  que evidenciam partes do corpo  torcidas  em  formas irreconhecíveis  pelos venenos  radioativos.

A atriz conhece o arquiteto japonês e dorme com ele. Ela conta da visita ao museu, e por ter visto os documentos históricos, tenta convencê-lo de que “viu tudo”. O japonês, cujos pais testemunharam a queda da bomba, rebate:  “Você não viu nada em Hiroshima”.

O embate entre a visão proporcionada por um recorte e a memória de testemunhas que estiveram no lugar histórico parece resumir um drama da pós-modernidade. A visão da atriz tem o limite permitido pela visão historiográfica, o limite de uma memória abalada pela perda de um amor romântico na Segunda Guerra. Mais do que oposição entre duas visões, a de quem viu de longe, e quem viu de perto,  Hiroshima, mon amour é um filme sobre o reestabelecimento da memória profunda, a que faz os seres humanos superarem traumas e conectarem-se à vida.

Durante a ocupação alemã da  França, a atriz conheceu um soldado alemão na cidade natal dela, Nevers, e  apaixonou-se. No dia em que a França é libertada pelos Aliados, a jovem deveria voltar com o soldado para a  Bavária. Mas ele é morto  pelos moradores de Nevers.  Para puni-la por ter “colaborado com o inimigo, os cidadãos de Nevers cortam seu cabelo.

Quando ela conta a história do romance secreto ao japonês, a atriz reitera que em poucos anos o esquecerá. Duras e  Resnais parecem querer  fazer do esquecimento a maior metáfora para entender não apenas o relacionamento entre a francesa, o alemão  e o japonês, mas também a visão parcial a respeito do cataclisma atômico.

Nevers não guarda memória testemunhal da destruição atômica nas cidades japonesas. No dia em que a bomba caiu em Hiroshima,  era uma jovem do interior da França que visitava Paris pela primeira vez. Para ela e  seus compatriotas, a notícia da bomba numa cidade distante significou não a morte e matança de centenas de pessoas e incontáveis animais, mas o fim  da guerra. O encontro com o arquiteto japonês desperta o sentimento adormecido da perda de seu amor. E emerge  a compaixão por outros seres, que perderam mais.

O que Nevers  diz ter visto, o hospital, o memorial, os documentos e a reconstrução dos danos da bomba não se configuram filmicamente como um flashback, uma visão de memória. Para os japoneses, personificados no arquiteto, a memória da tragédia de Hiroshima pertence àqueles que a experienciaram. Só as vítimas têm o direito exclusivo da memória do sofrimento, para representá-lo ou falar sobre ele.

O filme de Resnais mostra que uma certa espécie de esquecimento é precondição para o apaziguamento dos traumas de Hiroshima. Nas cenas iniciais, o abraço da francesa e do japonês lembram as cinzas radioativas que caíam nos corpos  das vítimas das bombas. Nevers é o ponto de conciliação com  personagens de nações inimigas que se tornam seus amantes, o soldado alemão e o arquiteto japonês. Os encontros interétnicos são casuais, mas de grande efeito simbólico . O primeiro desencadeia um trauma pessoal, curado pelo segundo encontro.

Hiroshima, mon amour  associa a memória à visão.  A cura da “cegueira” da francesa causada pela perda traumática do primeiro amor acontece com a transmissão do  relato de sua história – em linguagem psicanalítica, transferência – ao amante japonês. O psicanalista Sigmund Freud chamava a rememoração do trauma em condições seguras de ” cura pelo amor”.  O filme sugere que criaturas e coisas que precisam de cuidado sem terem ajuda sofrem a mais séria das doenças: a invisibilidade.

Hiroshima, mon amour denuncia uma nova era, de medo desconhecido, indiferença. A atriz vai ao museu buscar a cura para a sua indiferença. Em conversa com o arquiteto, no início do filme, desmascara a farsa de Hiroshima: ilusão para turistas chorarem. A francesa  identifica a sua perda pessoal irremediável com outras perdas. Enquanto ela perdeu os cabelos em sua cidade natal, milhares de japonesas perderam os seus, por conta da radiação.O choque por defrontar-se com uma dor maior que a sua a cura da indiferença diante dos dramas do mundo.

Resnais e  Duras mostram que os outros seres tornam-se visíveis diante de nós apenas quando reencarnados naquilo que amamos.  Os “outros” tornam-se visíveis quando entram na constelação de nossas memórias afetivas.

O soldado alemão é reencarnado pelo arquiteto japonês e a memória da destruição da guerra é superada. Os personagens, sem nome, ao final, chamam-se pelos nomes de suas cidades nativas, Hiroshima e Nevers. Através do enlace dos amantes, e de dois topônimos,  a memória da dor é conciliada em memória de amor. O ressurgimento das cinzas de corpos carbonizados  em Hiroshima só acontece quando se olha para fora.  Na interiorização do olhar, o encontro interétnico, ainda que fugaz, cria o apaziguamento.

NOTÍCIA | NIKKEI DO PR NO ANIMA MUNDI

Cena de "A verdadeira origem das espécies".
Cena de “A verdadeira origem das espécies”.

O filme de animação A Verdadeira Origem das Espécies, do curitibano Tadao Miaqui,  foi selecionado para participar do  Festival Animamundi 2013. O festival,  especializado em animação está na sua 21° edição, é considerado o 4° maior festival do mundo.

O filme é como se fosse um sonho de Charles Darwin, situando as aventuras intelectuais do criador da teoria do evolucionismo no Brasil contemporâneo. O naturalista especula como a  espécie humana evoluiria considerando o atual desenvolvimento tecnológico, com a criação de andróides e robôs.

A Verdadeira Origem das Espécies já foi premiado plea melhor direção no Festival de Maringá, em 2012 e melhor direção de arte no Festival de Petrópolis, esse ano.

A produtora de Tadao, a Frankenstoon, já teve filmes premiados em festivais de cinema, como Quando Jorge foi  à Guerra (2001) e O Tamanho que não cai bem (2001). Miaqui fez trabalhos de animação para o videodocumentário  O Continente de Érico Veríssimo, de Liliana Sulbach (2004), o filme  O Homem que Copiava, de Jorge Furtado (2000), a série de TV Aladdin,  da Walt Disney para  trechos do Programa Muvuca, de Regina Casé.

ANIMAMUNDI

O Animamundi  acontece nas duas maiores cidades brasileiras, Rio de Janeiro (de 2 a 11 de agosto) e em São Paulo (de 14 a 18 de agosto), e depois percorre outras cidades do Brasil na sua versão itinerante.

Mostras competitivas e informativas exibem curtas e longas de animação dos mais diversos gêneros, vindos de todo o mundo.  Do Japão, temos o curta infantil  Twins in Bakery, de Mari Miyazawa,  Blue Ice, de  Takeshi Nagata e Kazue Monno,  Ishekeri, de Yutaro Kubo, o longa Fuse, Teppo Musume no Torimonocho, de Masayuki Miyaji e  na mostra não competitiva: 663114, de Isamu Hirabayashi, Hinode, de Tetsuka Niiyama, Ishi Kara, de Tatsuhiro Ariyoshi, Maze e Rebuild, de Takeshi Nagata e Kazue Monno.

 

NOTÍCIA | CURTAS SOBRE JAPAS DE LONDRINA

Cena do filme Haruo Ohara. Foto: divulgação.

Cena do filme Haruo Ohara. Foto: divulgação.

No próximo sábado (08), a partir das 14h15, no Cine Itaú, em Curitiba,  acontece o lançamento dos DVDs e blue-ray dos  filmes de curta-metragem da Trilogia do Esquecimento, do cineasta Rodrigo Grotta, da produtora Kinoarte . A trilogia engloba os filmes Booker Pittman,  Haruo OharaSatori Uso. Os dois últimos filmes  enfocam  a vida de personagens nipo-brasileiros reais e fictícios em Londrina, no norte do Paraná, citados nesse artigo.

O lançamento acontece dentro do  Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, realizado a partir dessa quinta-feira (06) até o dia 14 de junho, em vários locais da cidade.

A Kinoarte, em parceria com a produtora Filmes do Leste pretende continuar investindo na produção da memória nipo-brasileira. Até a próxima sexta (14) está recrutando, através de e-mail, descendentes de japoneses entre 18 e 30 anos interessados em participar do curta-metragem Jardim Tókio. O  filme será  rodado em Londrina  na última semana de junho e integra o projeto Londrina Sonora,  parceria com a RPC TV. Interessados devem enviar e-mail com breve apresentação e foto de corpo para contato@filmesdoleste.com, com a descrição no campo assunto: elenco Jardim Tókio. Mais informações pelo telefone 43 3037 8886 (Filmes do Leste). A estréia do filme Jardim Tókio será na RPC TV em setembro.

 

NOTÍCIA | SESSÕES ESPECIAIS DE "AS LEIS MÍSTICAS"

Imagem: divulgação.
Imagem: divulgação.

A partir dessa quinta-feira (9) acontecem  exibições especiais do  animê As Leis Místicas (The Mystic Laws), que concorreu ao Oscar de Melhor Animação de Longa Metragem de 2013, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Dirigido por Isamu Imakake (Neon Genesis Evangelion), As Leis Místicas foi um filme criado pela mesma equipe de animação de sucessos como Naruto e Yu-Gi-Oh. Este ano, apenas dois desenhos animados japoneses ficaram entre os 21 selecionados que concorreram à categoria de Melhor Animação. Além de As Leis Místicas, o outro concorrente foi From Up on Poppy Hill (Kokurikozaka kara), uma produção do estúdio Ghibli.  O animê ainda recebeu o Prêmio Especial do Juri no  46º Festival Internacional de Cinema de Houston, nos Estados Unidos.

Política e guerra se entrelaçam a misticismo e seres de outro planeta, numa miscelâneo bem ao gosto da fantasia dos animations. Assista o trailer aqui.

CINEMARK METRÔ SANTA CRUZ (SP) – Endereço: Rua Domingos de Morais, 2.564 – Shopping Santa Cruz – 3º Piso – Vila Mariana- Telefone: (11) 3471-8070

  • 09/05 (quinta) – 21h00
  • 11/05 (sábado) – 14h00
  • 13/05 (segunda) – 21h00
  • 14/05 (terça) -14h00
  • 16/05 (quinta) – 16h00

CINEMARK BOTAFOGO (RJ) – Endereço: Praia de Botafogo, 400 – Botafogo, Rio de Janeiro – RJ – Tel. (21) 2237-9481

  • 09/05 (quinta) – 21h00
  • 11/05 (sábado) – 14h00

PREÇO 

R$ 16 e R$ 8 (meia entrada), nos dias de semana; R$ 22 e R$ 11 (meia entrada), nos fins de semana. Ingressos antecipados: www.ingresso.com.br

19 KINEMA | OS CINEMAS JAPONESES DO BAIRRO DA LIBERDADE

Cine Jóia, a sala mais precária, que exibia filmes de maior qualidade.
Cine Jóia, a sala mais precária, que exibia filmes de maior qualidade.

“Um circo”. “Uma aventura mágica”. Essas são as palavras que definem a projeção de filmes japoneses nos cinemas de São Paulo a partir de 1946. No início,  o cinema era ambulante, projetado por cinemasha, como Kimiyashu Hirata. Em 1953, foi inaugurada a primeira sala de cinema do bairro da Liberdade, o Cine Niterói. No ano seguinte foi inaugurado  o Cine Tokyo (que se tornou Nikkatsu), em 1959 o Cine Nippon e  o Cine Jóia. As quatro salas exibiam filmes de cineastas como Masaki Kobayashi, Akira Kurosawa e Kenji Mizoguchi, para um público muito diversificado, não apenas de nikkeis.

A cineasta nikkei Olga Futema e o produtor cultural Jo Takahashi eram assíduos frequentadores dos cinemas da Liberdade.  Os filmes japoneses também se tornaram uma paixão para o monge budista Ricardo Gonçalves, que se tornou tradutor de cinema japonês e para José Fioroni Rodrigues , que aprendeu japonês ali e  se tornou crítico de cinema.  Os cineastas  Walter Hugo Khouri (1909- 2003) e Carlos Reichenbach (1945-2012), o escritor João Antonio (1937-1996) e Claudio Willer  foram outros cinéfilos  que frequentaram a Liberdade em busca de filmes de Yasujiro Ozu e Shohei Imamura.

Quem conta a  história das salas é o antropólogo social Alexandre Kishimoto, no livro Cinema Japonês na Liberdade (Estação Liberdade). As salas de cinema paulistanas, além de difundir o  cinema japonês para o público brasileiro desempenharam uma função importante de conciliar a comunidade nipo-brasileira após a Segunda Guerra Mundial.  As restrições de liberdade de expressão  impostas pelo governo brasileiro impediram a exibição de filmes  japoneses.  No pós-guerra, a  comunidade estava dividida entre os kachigumi (vitoristas), que acreditam na vitória do Japão na guerra, e os makegumi (derrotistas), que pregavam a derrota. O cinema foi um ponto de convergência entre os adeptos das duas facções.

Além da função política, os cinemas da Liberdade ajudaram a expandir o bairro japonês em São Paulo. Em seu entorno cresceram restaurantes, lojas de produtos japoneses,   hotéis e templos.  Muitos frequentadores não nikkeis, além de ver os filmes, também iam a esses lugares, chegando até a praticar meditação zen-budista.

De 1948 a 1988 foram exibidos mais de 2.500 filmes japoneses nas quatro salas. Obras como o pioneiro Rashomon, de Kurosawa, que tornou o cinema japonês universal,  7 Samurais, Tora-san, Balada de Narayama, Harakiri e outros, eram comentadas por críticos de cinema em grandes jornais. Rubem Biáfora, por exemplo, em sua coluna sobre cinema, sempre indicava um japonês.

O fim das salas japonesas foi determinado por um decreto do governo que exigia um porcentagem de exibição de filmes nacionais em cada espaço. As salas foram transformadas em igrejas evangélicas ou casas de show. Mas o cinema japonês não ficou órfão em São Paulo. Muitas mostras de cinema japonês continuaram a ser promovidas na cidade, que já tinha um público formado, graças à existência daquelas salas. (MK)