28 KINEMA | MOSTRA DE CINEMA NIKKEI : YPÊ NAKASHIMA

Cena do filme Ypê Nakashima.
Cartazete do filme Ypê Nakashima.

Nos anos 70, o imigrante japonês  Ypê Nakashima fez o primeiro longa metragem  colorido em animação do Brasil.  Piconzé  é um filme com 80 minutos desenhados à mão livre, quadro a quadro rascunhados, traçados, refeitos e pintados.  O processo artesanal do filme, que contou com uma equipe de produção não-profissional, chamou a atenção dos pesquisadores para a persistência de Nakashima.

O animador nasceu em 5 de junho de 1926, na província de Oita, na extremidade sul do arquipélago japonês. Quando tinha 17 anos, entrou na Escola de Belas Artes de Kyoto. Aos 19, foi forçado a interromper os estudos, convocado a prestar serviços na guerra. Foi designado a servir em Nagassaki. Terminada a guerra, voltou aos estudos. Trabalhou para  jornais  Mainichi Shimbum; Assahi Shimbum; Yomiuri Shimbum, fazendo charges, tiras, e ilustrações.Viveu cerca de dez anos em Kyoto.

Em 1956,  já casado e com o filho Itsuo,  embarca para o Brasil. Em São Paulo, Ypê se inteirou  com a colônia japonesa. Prestou serviços para Nippak Shimbum, São Paulo Shimbum, Cooperativa Agrícola de Cotia. Começou a pesquisar cinema de animação, associando-o à fascinação pelas lendas e folclore brasileiros. Criou o personagem Papa-Papo, um papagaio, com o qual fez inúmeros curtas-metragens, nunca exibidos em qualquer circuito.

Em 1966, faz contato com o Japão para começar a  produção de um longa metragem, que finalizou em 6 anos. Piconzé estreou em 1972 e recebeu o prêmio Coruja de Ouro do Instituto Nacional do Cinema (INC). Em 6 de abril de 1974, Ypê Nakashim morreu, com 47 anos de idade. Em  25 de maio de 1975, Ypê Nakashima recebeu postumamente, o prêmio – GOVERNADOR DO ESTADO – entregue a seu filho Itsuo,  no Palácio dos Campos Elíseos.

PICONZÉ e DOCUMENTÁRIO

Piconzé  foi filmado em negativo colorido, 35 mm, acumulou 25 mil acetatos, igual quantidade de animação e intervalação, 300 cenários.  O personagem-titulo  vive na pacata vila do Vale Verde, com seu amigos   Louro Papo, Chico Leitão. Gustavo Bigodão e seu bando passaram a roubar Vale Verde. Num assalto, Bigodão rapta Maria Esmeralda, a namorada do Piconzé. Piconzé e sua turma partem para salvá-la. Depois de muitas aventuras,  encontram um ermitão que ensina Piconzé  a lutar para enfrentar o Bigodão. Piconzé consegue salvar Maria Esmeralda. No fim,  a paz e tranqüilidade voltam a Vila Verde.

Itsuo Nakashima vivia contando as histórias de seu pai para família e amigos. Um dia, contou para o cineasta Hélio Ishii e este resolveu fazer um filme sobre o animador, com o título de seu personagem. Em 2007, o cineasta  lançou  o documentário Ypê Nakashima, baseado no depoimento de  Itsuo   e da  netas Larissa e Lorena, que nunca  tendo tido contato com o avô.  O testemunho de Itsuo divulga para um público  mais amplo passagens curiosas da vida de Ypê Nakashima. Apesar de ter combatido na Segunda Guerra mundial,  na artilharia antiaérea em Nagasaki,  o animador parece não ter sido abalado por  traumas.m tinha um  espírito alegre e descontraído.

A MOSTRA DE CINEMA NIKKEI apresenta os filmes Piconzé e Ypê Nakahsima no domingo (29) , no Cine Guarani, no Portão Cultural  – Avenida República Argentina, 3430.

28 KINEMA | MOSTRA DE CINEMA NIKKEI: CURTAS CONTEMPORÂNEOS

Cena de "O samurai de Curitiba".
Cena de O samurai de Curitiba.

Na próxima sexta-feira (25), a MOSTRA DE CINEMA NIKKEI, promovida pelo MEMAI com o apoio do Consulado Geral do Japão em Curitiba e Fundação Cultural de Curitiba abre com uma sessão de curta-metragens dos cineastas Olga Futemma, Rodrigo Grota, Roberval Machado e Edson Takeuti.

De Olga Futemma, a mostra apresenta Retrato de Hideko e Chá verde e arroz. Retrato de Hideko trata do mito da boneca perdida típica à mulher do dia-a-dia, quatro gerações da mulher japonesa: a luta pela sobrevivência, o culto às tradições, a adaptação à cidade e a diluição cultural. Chá verde e arroz tem como tema o cinema ambulante japonês nas comunidades do interior paulista, no final da década de 50. Ex-benshi (narrador de filmes japoneses) e seu assistente visitam uma pequena cidade e promovem uma sessão. Tudo é acompanhado por Jo, um garoto que adora cinema.

De  Rodrigo Grota, serão exibidos Haruo Ohara e Satori Uso.  O primeiro é uma biografia lírica do Biografia do fotógrafo japonês radicado em Londrina, Haruo Ohara (1909-1999). O diretor remonta algumas cenas de fotografias que se tornaram famosas na obra de Haruo, como a do lavrador empunhando a enxada para o céu e a da menina saltando de sombrinha. Já Satori Uso simula, em ambientação de filme noir, um documentário sobre um poeta que nunca existiu apresentado por um cineasta imaginário: Jim Kleist. Inspirado na obra poética de Rodrigo Garcia Lopes (autor dos haicais).

De José Roberval Machado, o documentário O samurai de Curitiba, sobre o roteirista e desenhista Claudio Seto, com enfoque na sua produção de histórias em quadrinhos publicadas nas editoras Edrel e Grafipar entre os anos 60 e 80. Seto dedicou-se a diversos estilos de histórias, como de samurais, de terror, policiais e eróticas. Além dos enredos, foi um dos pioneiros do estilo mangá no Brasil, através da revista O Samurai, publicada na década de 60 pela Edrel. O filme também aborda a questão da censura, já que a publicação dos quadrinhos ocorria durante o governo militar e a maioria das histórias possuía teor erótico.

O Gralha  – O ovo ou a galinha, de Edson Takeuti (Tako-x)  presta homenagem aos super-heróis americanos, de forma irreverente  e com cor local.  Mais uma aventura do super-heroi curitibano em luta eterna contra seu inimigo mortal, O Craniano. O filme foi feito em 2002, depois de Tako-x participar de um curso com Tizuka Yamasaki. Ele escreveu e dirigiu um “live-action” , um filme com atores representando personagens de HQ.  Tako-x fez  mais 2 curtas: O Gralha e o Oil-Man – Um Encontro Explosivo e”O Apêgo.

17 KINEMA | FILME REVÊ A HISTÓRIA DA SHINDO RENMEI

Tokuchi Hidaka, protagonista de Yami no ichinichi. Foto: divulgação.

A Shindo Renmei, mais famosa organização nacionalista japonesa ativa no pós-guerra, no Brasil, mais uma vez é tema de um filme. No documentário   Yami no Ichinichi (Um dia de trevas) – O Crime que abalou a Colônia Japonesa no Brasil, o  cineasta  Mario Jun Okuhara propõe uma revisão da história da Liga do Caminho dos Súditos . O filme  traz o depoimento de Tokuichi Hidaka, que, em 1946, aos 19 anos de idade, foi um dos autores do assassinato do coronel Jinsaku Wakiyama, em crime atribuído à organização ultranacionalista Shindo Renmei.

Depois de cometer o crime, com mais três amigos, Hidaka entregou-se à polícia e cumpriu 15 anos de prisão.   Quando saiu, foi discriminado pela comunidade nipo-brasileira. O documentário é a oportunidade de Hidaka contar a sua versão da história.  Ele volta à Ilha de Anchieta para gravar cenas e relembrar  suas memórias. O filme traz também depoimentos de  integrantes da família Wakiyama, de historiadores e políticos, e  uma conversa do escritor Fernando Morais, autor do livro Corações Sujos,  com a historiadora Célia Oi.

Fora os testemunhos  de Hidaka e da família Wakyama, os depoimentos  de historiadores e jornalistas reforçam a pressão em que viveu a comunidade nipo-brasileiros entre os anos 1935 e 1945, e também no pós-guerra.

Presídio da llha de Anchieta, a 240 Km de São Paulo, desativado em 1952. Foto: divulgação.

Devido ao apoio aos países aliados, durante a década da Era Vargas, os imigrantes japoneses, alemães e italianos  estabelecidos no país  foram  considerados inimigos. As várias restrições impostas, como a proibição do uso da língua japonesa, a circulação de jornais e transmissão de rádio e as reuniões públicas, isolaram a comunidade.  Esse contexto de dificuldade em receber informações sobre o Japão foi ideal para o surgimento de facções nacionalistas.  As seitas manipulavam  informações, chegando a forjar documentos e jornais, afirmando que o Japão havia ganho a guerra.  A comunidade dividiu-se entre  derrotistas (makigumi) e vitoristas (kachigumi) e a oposição começou a desencadear tumultos internos, com uma série de assassinatos.

O documentário levou 11 anos para ser finalizado. O interesse pelo tema começou em 1997, com estudos de Okuhara com o professor Michiro Motoda e acentuou-se com o lançamento do livro de  Fernando Morais , em 2000.  O cineasta  quis tomar partido , embora o documentário seja dominado pelo ponto de vista de Hidaka.

Okuhara é repórter e produtor, iniciou sua carreira em documentários no Programa Imagens do Japão no ano de 1997, com temas culturais. “Uma vida pelo Beisebol”, “Batyan” e “Shamisen para Sempre” são títulos de documentários exibidos na TV brasileira.

Idealizador do Projeto ABRANGÊNCIAS para discussão sobre Representatividade, Participação Política, Direito à Verdade e à Memória, Okuhara dedicou 12 anos de pesquisa para resgatar os episódios do conflito vitorista-derrrotista no pós-guerra e sobre a brutal repressão contra japoneses e descendentes na ditadura do presidente Getúlio Vargas.

O documentário pode ser assistido  aqui.