32 PESQUISA | NISHIKI ICHIBA, ALÉM DO JAPÃO EXÓTICO

Uma feira de produtos populares.

Texto e fotos por Victor Hugo Kebbe

Não posso descrever todas as sensações que senti quando visitei Kyoto pela primeira vez na minha vida. Que eu tenho uma relação especial com o Japão não sobra dúvidas. Mas Kyoto tem essa energia especial, inacreditável e indescritível, que leva todo o visitante de volta no tempo para um passado distante e, para muitos, um passado surreal, como se estivéssemos deslocados no espaço-tempo continuum.

Kyoto foi estabelecida no século VII, em uma terra chamada Yamashiro-no-kuni pelo Imperador Kammu. Estritamente seguindo a geomancia chinesa da Dinastia Tang (você pode ver pelo layout da cidade, a malha urbana e a disposição dos quarteirões), orientações do feng shui e a proteção natural oferecida pelas montanhas circundantes, Kyoto, antigamente conhecida como Heiankyō, foi a segunda capital do Japão, precedida por Heijōkyō, Nara.

Doces e alimentos em profusão
Doces e alimentos em profusão

Fortemente influenciada pela cultura chinesa, budismo, literatura, música, dança, artes e leis, Kyoto vivenciou o Período Heian, considerado por alguns como o apogeu ou a epítome da nobreza e vida na corte. Conhecida até os dias de hoje como um dos meiores centros da alta arte japonesa, Kyoto é uma cidade que ainda exala graciosidade, independente do distrito em que você esta localizado.

Se você quer itens de artesanato da melhor qualidade ou mesmo conhecer outras facetas da culinária japonesa, você deve definitivamente ir para Kyoto, um lugar obrigatório para cada visitante que aterrissa em território japonês. Sobre a culinaria japonesa, bem, venho para falar sobre um lugar especial cujas lojas tradicionais são fontes de ingredientes infinitos não apenas para o dia-a-dia, mas também para os melhores restaurantes da cidade. Hoje falarei da Cozinha de Kyoto.

Há alguns meses atrás escrevi um artigo sobre as aventuras gastronômicas de Jiro Taniguchi e Masayuki Kusumi no fantástico manga Gourmet (孤独のグルメ). Como escrevi naquele texto, uma das melhores experiências que você pode ter no Japão é encontrar tamanha diversidade e uma culinária fantasticamente saborosa, às vezes encontrando surpresas em lugares inesperados que transcendem aquela lógica de que “no Japão eles só comem sushi, sashimi e temaki.”

mimimi
Louças ou quinquilharias, de tudo se acha.

Mais uma vez, por pratos típicos japoneses, estou falando sobre o que você come no dia a dia na Terra do Sol Nascente. Não, não aquela estupidez de pensar que o Japão foi tomado por temakis. Muitos dos meus amigos ainda se surpreendem quando digo que há muito mais coisas que sushi e sashimi. Um dos melhores lugares para entender, sentir, cheirar e experimentar esta dimensão da vida cotidiana japonesa é visitando o Mercado Nishiki ou Nishiki Ichiba (市場), um lugar mágico consistindo de longos e estreitos quarteirões próximos à rua Teramachi (寺町通) e muito perto de Pontochō (先斗町).

Suas primeiras lojas tradicionais datam do século XIV, tornando-se um dos mais importantes fornecedores de peixe da cidade. Nishiki Ichiba gradualmente se transformou em um grande mercado, cujos produtos incluem não só alimentos e ingredientes para cozinha, mas também artesanato, porcelanas e outros badulaques da vida cotidiana. Ao longo de várias lojinhas de tremeliques, quitandas, lojas de arroz, peixarias, docerias e sorveterias existem vários restaurantes servindo comidas típicas. Ao final, o tour em Nishiki Ichiba pode durar por horas a fio, repletas de comida boa que é totalmente desconhecida aos estrangeiros. Com seu pé direito alto e telhas de vidro verdes, vermelhas e amarelas, Nishiki Ichiba é apinhada de gente de todo tipo, todos imersos em um mundo de cheiros e gostos infinitos.

Diversão para visitantes do Japão e fora.
Diversão para visitantes do Japão e de fora.

Na primeira vez que estive em Nishiki Ichiba estava acompanhado da presença de grandes amigos, uma delas residente de Kyoto naqueles tempos. Conhecendo para beco, viela e rua da cidade, ela me levou para um dos lugares mais impressionantes de Kyoto, um mercado que me fascinou de pronto. Convenhamos, o Japão definitivamente não é um lugar invadido por Monstros Sushi, Sashimi-zillas ou Temakis Robóticos.

Levou alguns anos para que pudesse retornar ao mercado, desta vez prestando atenção em outros detalhes que passaram despercebidos naquela vez. Antes uma profusão de sinais para todos os sentidos, agora o Nishiki Ichiba me era um lugar extremamente familiar, cujos lojistas e passantes eram todos muito gentis, que não hesitavam em trocar algumas palavras, em japonês, com um pesquisador que se sentia de volta em casa. Por um breve momento tudo parecia congelado no tempo. Ou ao menos parecia que o tempo passava mais devagar naquele mercado. Preocupe-se menos com sushis, templos, santuários e todo aquele mimimi de alta tecnologia e se permita a ser fisgado pelo estômago. Dê uma chance. Te garanto que será delicioso.

22popimagem02Victor Hugo Kebbe é Doutor em Antropologia Social pela UFSCar. Além de realizar pesquisas sobre a comunidade nikkei no Brasil, se dedica ao estudo de parentesco japonês e famílias decasséguis no Japão. Foi Fellow da Japan Foundation, pesquisador associado da Faculdade de Educação da Shizuoka University e do Instituto de Antropologia da Nanzan University, Nagóia. É autor do blog Japanologia.

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