25 SOCIEDADE | HIKIKOMORI, UM FENÔMENO JAPONÊS

O  fenômeno hikikomori , o hábito de se trancar em casa por anos a fio, rompendo os vínculos sociais, não é exclusivo do Japão. Mas os pesquisadores o relacionam com muitas características da personalidade japonesa, como a introversão social aliada à exigência de alta performance no ambiente escolar e profissional.  A proliferação dos aparatos tecnológicos – computador, celular, games. redes sociais – facilitou o surgimento dos hikikomori em todos os países, inclusive no Brasil. Esses jovens, que têm entre 20 e 30 anos, em média, não estudam nem trabalham e muitos podem até viver com os pais, que nunca os veem em casa.

De acordo com pesquisas conduzidas pela professora Cecília Noriko Ito Saito,  os hikikomori  (a palavra vem da junção de hiku – puxa e komoru – retirar) se diferenciam dos otakus.  Esses últimos também são grandes adeptos da tecnologia, mas não rompem os laços sociais.  Pelo contrário, animês e mangás são temas de conversa e motivos para encontros.  Já os hikikomori têm aversão ao  contato do olhar, como mostra o filme Shaking Tokio, do coreano Bong Joon Ho .  Na história, um amante de literatura aprisionado em casa há anos tem sua rotina alterada. Durante um terremoto, uma entregadora de pizza desmaia em sua casa. Ele é obrigado a tocá-la e o contato físico acaba desarmando o seu isolamento social.

Shaking Tokio é uma sátira à radicalidade da introspecção nipônica, mas alerta para o fechamento que a tecnologia pode impor aos mais sensíveis.  A raiz do isolamento está no bullying, na experiência brutal do  abuso psicológico na infância ou na juventude. Uma opinião postada no fórum sobre o tema na rede Linkedin, afirma que o fenômeno é típico da complexidade urbana contemporânea : Acho que há várias subcategorias neste fenômeno, mas parece que, em geral se refere a pessoas que se tornaram tão magoadas e danificadas pelas indelicadezas e outras expressões de comportamento, sem compaixão, e também sofreram rejeição em mais de um sentido, tornando sua existência inútil – o que os torna assustados para enfrentar as durezas da sociedade moderna. Quando as pessoas costumavam viver em sociedades mais conectadas, com parentes e vizinhos olhando um para o outro, como em uma situação em estilo nagaya, o hikikomori era menos prevalente.  (SM, 01 de fevereiro de 2012, em Hikikomori – A vida enclausurada nas redes sociais, Cecília Saito e Christine Greiner, Intermeios, 2013).

A recessão econômica japonesa, que tem oferecido apenas empregos free-lance ao jovens, e a extrema competição também estão elencados entre as razões para o enclausuramento tecnológico. Desde 2007, o Ministério da Saúde japonês tem um programa para estimular os enclausurados a sair de casa. Através da visita de assistentes sociais, os doentes são abordados por cartas, telefonemas, e-mails e convidados a passear em parques ou para ver um filme.  Infelizmente, a taxa de  recuperação é em torno de 30% dos casos.

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