NOTÍCIA | INÉDITOS DE MABE EM SÃO PAULO

"Trópico", 1962.
“Trópico”, 1962.

Até 18 de maio os apreciadores de arte podem ver, em São Paulo, muitas obras ainda inéditas de  Manabu Mabe, um dos mais representativos artistas nipo-brasileiros. A mostra  “Manabu Mabe Anos 1950 e 1960″, traz 36 obras do artista, algumas cedidas por colecionadores. Considerado um abstracionista gestual, o pintor fez parte do grupo Seibi-kai,  do qual também participaram Tomie Ohtake, Tikashi Fukushima, Masao Okinaka e outros artistas nikkei.

 O artista  (1924-1997), nascido em Kumamoto, veio para o Brasil com 10 anos de idade. Trabalhou na lavoura de café no interior de São Paulo.  Entre as décadas de 50 de 60 ganhou destaque com prêmios como o de melhor pintor nacional na 5ª Bienal de SP, o Prêmio Fiat na 30ª Bienal de Veneza, o Prêmio da I Bienal de Jovem de Paris, entre outros reconhecimentos.

A exposição tem curadoria de Max Perlingeiro. Uma curiosidade é que cada tela tem um código QRCode. Aproximando o celular ou tablet da obra, obtém-se mais informações sobre ela. Para os que gostam de impresso, há o  livro “Manabu Mabe Anos 1950 e 1960″, preparado pelo crítico Paulo Herkenhoff,   com ensaios sobre o artista e suas obras.

As obras de Mabe estão expostas na  Pinakotheke São Paulo (rua Ministro Nelson Hungria, 200, Morumbi, São Paulo), de segunda a sexta, das 10 às 18  e aos sábados, das 10 às 16 h. Informações:(11) 3758 5202 ou (11) 3758 0546.

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NOTÍCIA | NY TIMES CRIA HAICAI ELETRÔNICO

21noticiasimagem07Manchetes e notícias de jornal já renderam poemas para autores como Manuel Bandeira e Ferreira Gullar.  Até agora, ninguém havia pensado que  manchetes e notícias poderiam ser transformadas em haicais, o poema de três versos japonês.  O programador americano Jacob Harris, que trabalha no jornal  The New York Times criou um algoritmo que faz isso.

O terceto chamado de haiku no Japão e nos EUA, tem  dezessete sílabas , cinco na primeira linha, sete na segunda e cinco na terceira. De acordo com os seguidores do haiku tradicional, a métrica não é a sua principal característica. Um  haicai tradiconal deve conter uma palavra que indica a estação do ano – o kigo – e justaposição de imagens verbais, cortadas pelo   kireji, geralmente indicado por um sinal gráfico, travessão, dois pontos ou reticências.

Como funciona o algoritmo ? Harris explica que a  ferramenta checa a página principal do jornal  periodicamente buscando artigos recém publicados. Então, escaneia cada sentença, procurando por haikus potenciais, usando um dicionário eletrônico contendo sílabas contadas. O programador diz que começou com um vocabulário básico rimado, mas com o tempo, acrescentaram sílabas contadas para palavras  “Rihanna” ou  “terroir” , para manter  o compasso com o extenso vocabulário do  The Times.

Nem sempre o poema que o computador descobre tem qualidade. O algoritmo descarta alguns, se for construído desajeitadamente  e não varre artigos  cobrindo tópicos sensíveis. Além disso, a máquina não tem senso estético, não pode distinguir entre um verso elegante e um grosseiro.  Mas, quando funciona bem,  cruza algo bonito ou engraçado ou um precioso haicai, e jornalistas humanos o selecionam e postam no blogue. Leia os haicais construídos pelo poeta eletrônico aqui.

NOTÍCIA | FEIRA EM SP VENDE OBRAS DE NIKKEIS E JAPONESES

Obra de Aya Takano.
ob – Before Dawn, 2012 , (c)2012 ob/Kaikai Kiki Co., Ltd. All Rights Reserved.

De 4 a 7 de abril acontece a  SP-Arte, no Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, reunindo mais de 120 galerias do Brasil e exterior.  Entre essas galerias estão as cinco  mais poderosas do mercado: Gagosian, White Cube, Pace, David Zwirner e Hauser & Wirth. Colecionadores, artistas, galeristas, entusiastas, pesquisadores e curadores fazem parte do público, estimado em  mais de 20  mil pessoas.

Obras de artistas nipo-brasileiros, como Tomie Ohtake, Flávio Shiró e Alice Shintani  estarão presentes no evento. As galerias que representam os  japoneses   também levarão seus artistas: fotografias de Hiroshi Suguimoto e Masao Yamamoto e instalações de Aya Takano, representada pela  Kaikai Kiki Gallery, de Tóquio, que também apresenta obras de  Haruka Makita, ob e  Otani Workshop. O polêmico  Takashi Murakami será representado pela Gagosian.

A feira abre nessa quarta-feira (03), somente para convidados, das 14h às 22h  e das 17h às 22h . Nos dias 04 e 05 de abril, estará aberta das 14h às 22h e nos dias 06 e 07 de abril, das 12h às 20h. O evento acontece no Pavilhão Ciccillo MatarazzoParque do Ibirapuera, em São Paulo. Os ingressos serão vendidos a R$ 30 e R$ 15.

NOTÍCIA | CURSO SOBRE O AQUI-AGORA NA CULTURA JAPONESA

Capa do livro de Shuichi Kato, traduzido para o português.
Capa do livro de Shuichi Kato, traduzido para o português.

A partir dessa quinta-feira (4), os pesquisadores Neide Hissae  Nagae e Fernando Chamas iniciam o curso  Tempo e espaço na cultura japonesa, na Livraria Cultura, em São Paulo.  O curso é baseado no livro do crítico japonês  Shuichi Kato, traduzido pelos pesquisadores. São exploradas três  áreas de  conhecimento:  arte, literatura e história japonesa, divididos em três módulos: comparação dos tipos de “tempos orientais”, a ênfase no presente na literatura e o espaço-tempo nas artes-plásticas.

Shuichi Kato é autor de vários livros sobre a cultura japonesa e literatura clássica chinesa. Ficou famoso por investigar a cultura japonesa sob o ponto de vista familiar e estrangeiro. Deu palestras em universidades americanas, alemãs, inglesas, e foi curador do Museu de Kyoto para a Paz no Mundo. De  1980 até a sua morte escreveu no Asahi Shimbun, um dos maiores jornais japoneses, discutindo temas como sociedade, cultura e relações internacionais.

Inspirado em suas ideias, seus tradutores pretendem mostrar que a aparente preocupação com o passado e o futuro é decorrente de um “imediatismo” próprio da cultura consumista contemporânea. Neide Hissae Nagae é Mestre em Literatura Japonesa e  Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada. É professora  de cursos de graduação e pós em Letras-Japonês na USP,  e pesquisadora do Centro de Estudos Japoneses, com foco em língua e literatura japonesa, pensamento japonês e tradução. Fernando Carlos Chamas é Mestre em  Língua, Literatura e Cultura Japonesa pela USP. Iniciação Científica em Escultura Budista Japonesa, concluída com a dissertação de mesmo tema. Dedica-se ao ensino da língua japonesa e às aulas e palestras sobre os diversos temas referentes ao budismo, como sua arte e as culturas que influenciou, sobretudo a japonesa, e também as religiões orientais, em geral, e a Cultura Japonesa.

O curso segue nos dias 11 e 18 de abril a partir das 19h30 e custa R$ 240. O local das palestras é o Shopping Market Place, Av. Dr. Chucri Zaidan, 902, Vila Cordeiro,  São Paulo.

 

20 ENTREVISTA | MAIS DE 400 TONS NO TRAVESSEIRO

Xilovravura de Tsukioka Settei (1710-1786). (Imagem de capa da tradução brasileira).
Xilogravura de Tsukioka Settei (1710-1786). (Imagem de capa da tradução brasileira).

Por Marilia Kubota

O Livro do Travesseiro (Makura no Sôshi), escrito por Sei Shônagon,  é  a obra japonesa clássica mais conhecida no Ocidente, comparável apenas à As Narrativas de Genji (Genji Monogatari), escrito por Shikibu Murasaki. Mas a obra de  Shônagon é anterior à de Murasaki, ambas damas da corte do período Heian (794-1192). O Livro do Travesseiro  foi escrito no ano 1001, e Genji, em 1010. Shônagon inaugura o gênero zuishitsu, traduzido por “ao correr  do pincel”, o equivalente à técnica do fluxo de consciência na literatura modernista ocidental.

“É surpreendente para os pesquisadores de literatura no Ocidente saber que nessa época, no Japão, já existiam uma literatura de alto nível escrita por mulheres”, afirma Madalena Hashimoto Cordaro, organizadora da tradução da edição brasileira. O estilo sintético da linguagem, a fragmentação narrativa,   o apurado senso de humor fizeram a notoriedade de Shônagon. Sua obra inspirou outros escritores  no Japão da época e atravessou os séculos e  as fronteiras do  país. Intelectuais e artistas, como o escritor argentino Jorge Luis Borges e o cineasta inglês Peter Greenaway, tornaram-se seus admiradores. Borges chegou a traduzir, para o espanhol, 126 trechos de O Livro do Travesseiro. E Greenaway fez uma livre adaptação da obra: O Livro de Cabeceira (Pillowbook).

O título Travesseiro (em japonês, makura), de acordo com os críticos, não tem conotação erótica. Deve-se a um episódio em que Shônagon recebe da Consorte Imperial alguns papéis para escrever. Em vez de copiar os Registros Históricos da China, como toda a corte japonesa, a escritora propôs fazer um travesseiro. A sugestão pode ser um trocadilho com a palavra shiki, que significa “Registros Históricos” e também, “ato de estender ou forrar”, expressão usada quando a superfície a ser coberta é o chão ou o leito.

Shônagon, assistente da Consorte Imperial Teishi, não pretendia que seus escritos atingissem a posteridade. Embora muitas mulheres da corte fossem letradas, não era permitido que escrevessem em kanji – ideogramas chineses – considerado uma prática de domínio dos homens.  Enquanto a elite masculina escrevia e discutia temas nobres, como filosofia e política, às mulheres era permitido escrever em kana (alfabeto fonético, derivado das transcrições simplificadas dos kanji ) e discutir temas domésticos – a natureza, a poesia,  preferências  – ,  como se lê nos forros do Travesseiro.

O zuishitsu, gênero que Shônagon inaugura, foi seguido por escritores famosos, como Kamono Chômei (1153-1216), em Hôjoki (Relatos da cabana de nove metros quadrados) e Yoshida Kenkô (1283-1351), em Tsurezuzuregusa (Escritos do Ócio).  Mas o estilo da autora, o okashi,  é mais divertido.  Os críticos conceituam okashi em dois sentidos: um sorriso ou um chiste, ou para sugerir algo alegre, perspicaz e engenhoso, mas elegante. Em O Livro do Travesseiro a palavra okashi ocorre 466 vezes e pode ser associada a variações como beleza “clara”, “alegre”, “discreta”, “sutil” e “elegante”. A tradução brasileira avançou e expandiu seu significado para ” interessante”, “gratificante”, “prazeroso”, “excitante”, “fascinante” e, até, “sublime”.

A leitura da obra revela a espirituosidade da autora, e razão por ela ter sido cultuada através do tempo. Shônagon, além do conhecimento da cultura chinesa, como era de se esperar dos nobres, tinha um espírito livre. Quando a Consorte Imperial ou as damas da corte propunham jogos poéticos, inventava saídas anticonvencionais, como se lê no trecho a seguir:

280.  A NEVE HAVIA SE ACUMULADO BEM ALTO

A neve havia se acumulado bem alto e, excepcionalmente, a janela de treliça estava abaixada; acendemos o braseiro quadrado e conversávamos reunidas, quando Sua Consorte Imperial dirigiu-me a palavra: “Dama Shônagon, como estaria a neve do pico Kôro?” Mandei subir a janela de treliça e pus-me a enrolar para o alto a persiana, o que fez Sua Consorte sorrir. As damas também reconheceram a alusão, pois já a havia utilizado em seus poemas, e disseram: “Nem tínhamos percebido que a situação do poema era a mesma. De fato, Sei Shônagon realmente faz jus a servir nesta Corte”.

O gesto de Shônagon alude a um famoso poema chinês, de autoria de Po Chu-i (722-846).  No poema, o autor, já idoso, diz ser um simples funcionário de una província longe da capital. Acomodado em sua modéstia e paz de espírito, certa manhã de inverno, deitado na cama com as persianas do aposento erguidas, deleita-se ouvindo o sino do templo e apreciando a neve do pico Kôro.

Em várias passagens do Travesseiro Shônagon faz alusões como essa, revelando erudição, humor e elegância. Como até então a corte japonesa era fortemente influenciada pela cultura chinesa, Shônagon, ao lado de Shikibu Murasaki, com sua espirituosidade pode ser considerada responsável por lançar  raízes de  uma literatura genuinamente japonesa. A obsessão por listas, distribuídas em composições   que começam por “Quanto a…”(wa-dan) e “Coisas que…” (mono-dan), indicam que, além dos jogos poéticos,  as damas da corte se divertiam  em elaborar listas de  preferências em relação a todos os assuntos. Para os críticos, essas listas acabam se tornando uma espécie de estudos lúdicos sobre a vida japonesa da época.

A tradução brasileira feita pelo  Centro de Estudos Japoneses  baseou-se numa cópia chamada Sankanbon (livro dos três volumes) , da editora Iwanami, com notas críticas de Minoru Watanabe, que esteve no Brasil em 1998. Também foram consultadas a versão de Hagitani Boku (1978), além de traduções em inglês (Ivan Morris, 1991) e em francês (André Beaujard, 1966).

A equipe de tradutoras é formada por cinco pesquisadoras do Centro de Estudos Japoneses, todas  doutoras em Teoria Literária, Linguística ou Filsofofia. Geny Wakisaka,  organizadora de traduções de Contos da era Meiji (1993), Contos modernos japoneses (1994), Contos de Ôe Kenzaburô (1995) e Contos da chuva e da lua (1996), de Ueda Akinari. Recebeu prêmio do governo japonês pelo estudo Man’ Yôshu: Vereda do poema clássico japonês (1992). Junko Ota, cotradutora de O anticinema de Yasujiro Ozu (2003), Coração, de Natsume Sôseki (2008) e Rashômon e outras histórias, de Ryunosuke Akutagawa (2008). Lica Hashitomo, tradutora de Após o anoitecer (2009), e 1Q84 (2012), de Haruki Murakami, E depois, de Natsume Sôseki (2011) e Um grito de amor do centro do mundo, de Kyoichi Katayama (2011). Também fez cotraduções de Murakami e Kenji Miyazawa. Madalena Hashimoto,  autora dos livros Pintura e escritura do mundo flutuante (2002), Ukiyo-e- Pinturas do mundo flutuante: a coleção do Instituto Moreira Salles (2008) e Madalena Hashimoto: Das dez mil faces (2008).  Cotraduziu também O anticinema de Yasujiro Ozu, e O florescer das cores: a arte do período Edo (2008). Luiza Nana Yoshida, especialista em narrativas setsuwa e literatura dos retirados.

A seguir, leia entrevista feita com elas  sobre os percalços da tradução do livro:

Da esquerda para a direita: Nana, Madalena, Geny, Lica e Junko.
Da esquerda para a direita: Nana, Madalena, Geny, Lica e Junko. Foto: Gustavo Morita.

Como começou o projeto de tradução de Makura no Sôshi  ?

Geny: Há mais de dez anos resolvemos traduzir uma obra da literatura clássica japonesa. Na ocasião ainda não tínhamos ideia de como seria feito. Eu e a equipe inicial optamos pela tradução da obra de Sei Shônagon. O trabalho foi caminhando  lentamente, era uma obra difícil, da literatura clássica, precisava muita pesquisa. Mas o projeto não foi interrompido. No começo as reuniões eram esporádicas, não seguiam ritmo regular. A equipe de tradução agregava mais tradutoras, que mudaram de local de trabalho, por isso não puderam continuar no projeto.

Como foi organizado o trabalho ? Cada uma traduziu uma parte da obra ?

Madalena: Quando pegamos o ritmo de trabalho, fizemos a divisão por número de páginas, o que calhava com determinados trechos. Alguns trechos são longos, como se nota na tradução. Às vezes o mesmo trecho era dividido em duas ou três pessoas. A  meta era distribuir três ou quatro páginas para cada uma. Uma pessoa preparava as páginas, distribuía para as outras e aí a gente discutia em reunião, todas as semanas. Por causa desse processo, a tradução foi demorada. Mas também tivemos que fazer pesquisas. Fizemos fichários com os termos da linguagem arcaica, estudamos o sistema político do período Heian, a fauna e a flora local e da época.  E anotamos cada vez que um termo aparecia com determinada acepção – porque a língua arcaica era  econômica, tinha menos vocábulos do que hoje. Um vocábulo como okashi,  por exemplo, que é o mesmo kanji no texto clássico, achamos mais possibilidades na língua portuguesa, dependendo do contexto. Geny: Okashi é um termo central na estética do livro. Atualmente podemos traduzir okashi como engraçado, cômico. Na época de Shônagon tinha significado de “acenar com  interesse para a estética aristocrática”.  Madalena: Uma estética da leveza, da fluidez, da sutileza, da alusão.

Em que gênero literário se enquadra O Livro do Travesseiro ?

Geny:  Sei Shônagon introduziu um  gênero literário no Japão chamado zuishitsu – ao correr do pincel.  Poderia ser traduzido como crônicas literárias. Na época dela as obras literárias consistiam em escritos sobre poemas (shu), narrativas (monogatari) e história do Japão (Kojiki e Nihonjiki). Shônagon criou esse novo estilo de literatura dentro da língua japonesa que persiste até hoje. Essas “crônicas”  estão  baseadas  na realidade e ela vai escrevendo o pensamento dela: crítica, apreciação e avaliações pessoais do mundo ao seu redor. Madalena: Vendo pelos olhos de hoje, podemos dizer que há partes que parecem diários. Há partes que parecem julgamentos estéticos (ensaios). E há partes mistas, de ambas as coisas. E a poesia está sempre presente, assim como as alusões às obras literárias, poemas chineses ou japoneses. Uma coisa que nos surpreendeu muito foi refazer esses textos historicamente., porque eles estão organizados numa ordem, que se o leitor for seguir a história, não consegue entender. Nós mesmos tivemos que estabelecer uma organização cronológica. È um estudo muito rico da história da corte japonesa.

Quem foram os leitores de Sei Shônagon na época em que ela escreveu o Travesseiro?

Madalena: As damas da corte e os cortesãos, a gente letrada,  a elite da corte. Eram os que tinham acesso ao papel, produto caríssimo para a época e a literatura circulava entre os cortesãos. O  Livro do Travesseiro teve tanta repercussão entre esses leitores que foi copiado por séculos e séculos. E o que a gente tem hoje é uma cópia, não é original, que se perdeu. Cópia de famílias de textos, como a gente costuma nomear entre os tradutores.  Nessas cópias há diferenças sutis entre uma e outra, como a organização de textos. Algumas cópias organizam só os julgamentos críticos de um lado, só as páginas de diário, de outro. E essas partes que parecem crônicas literárias, você pode tentar colocar numa certa ordem histórica. Aí você tem um outro livro. O que é interessante da versão que nós traduzimos é o aspecto randômico, que é da vida.

O que representa para a comunidade brasileira a tradução para a língua portuguesa ?

Madalena: Temos notado que não existem traduções brasileiras de obras da literatura clássica japonesa. A USP é a única universidade que ensina a língua clássica japonesa na graduação e faz pesquisa na língua clássica. As traduções diretas da língua japonesa, atualmente, são da língua moderna. Os escritores, Kawabata, Junichiro Tanizaki, Haruki Murakami, são modernos. E se a gente não lê os clássicos, fica com uma lacuna muito grande. O primeiro movimento de estudos japoneses no mundo todo, não só em língua inglesa, mas também em alemão, italiano, francês é traduzir seus clássicos, fundamentais em qualquer literatura. Mas é uma tarefa muito árdua.Antes, a professora Geny havia organizado uma seleção de contos,  Ugetsu monogatari , que é do século XVIII, ainda considerada língua clássica, mas mais próxima de nós. Makura no Sôshi é muito antigo, e quanto mais antigo é o texto literário, mais difícil é a sua leitura e tradução. Nesse sentido, a tradução de Makura no Sôshi é um marco. Agora estão sugerindo que traduzamos o Genji monogatari.

Seriam mais dez anos de trabalho ?

Madalena: não, acho que mais cem…(risos), porque é mais longo, são 54 livros. É um projeto que pode ficar para a próxima geração de tradutores (risos).  Ou se a  gente se animar, tentar traduzir um desses volumes, né, professora Nana?  (risos). A professora Nana fez um trabalho sobre o Konjaku monogatari, poderia ser o nosso próximo projeto.

Para Nana: Você traduziu o Konjaku monogatari ?

Nana Yoshida: pouquíssimas narrativas. No total são mais de mil narrativas, não tenho fôlego para esse trabalho, embora sejam contos curtos. As narrativas não são tão conhecidas como o Makura no Sôshi e o Genji monogatari, mas algumas temas estão presentes no mangá e no anime, por exemplo. O conto Dentro do bosque, de Ryunosuke Akutagawa, é uma adaptação de um dos contos do Konjaku.

Por que vocês escolheram traduzir Makura no Sôshi ?

Nana: Um dos critérios foi porque foi escrito no período Heian, quando se desenvolveu o silabário japonês, o Kana e se começou a escrever em japonês. Antigamente as obras no Japão eram escritas em chinês. Madalena: Makura no sôshi apresenta uma estética que se mantém presente na vida japonesa hoje.

Por que O livro do travesseiro foi capaz de entusiasmar intelectuais como Borges e Greenaway?

Madalena: Acho que o tempo de hoje vai buscar no passado as obras que tocam, que expressam o que esse tempo presente está passando. Tanto Borges como Greenaway viram no “Travesseiro” aspectos da atualidade, uma imaginação que às vezes beira a surrealidade, um modo de escrita livre, sem muita estruturação, uma liberdade contemporânea.  Eu acho que com as Narrativas de Genji, que é uma obra difícil de ser lida, não tão popular, embora seja conhecida. Já Sei Shônagon é uma leitura leve, airosa e profunda, sem ser depressiva. Nela, o humor é tratado de maneira grandiosa, em oposição ao humor como sendo uma coisa menor.

E o fato de uma mulher ter escrito essa obra no século XI no Japão tem importância na história da literatura japonesa?

Geny: a criação do silabário fonético japonês simplificou a escrita. Antes, tudo era escrito em kanji. Com a criação do kana, a escrita foi mais divulgada entre as mulheres e aí elas tiveram acesso à literatura chinesa. Com a aprendizagem do hiragana e do katakana, as mulheres ligadas à aristocracia começaram a escrever. Madalena: em termos de literatura comparada, literatura universal, todos os estudiosos se espantam com uma produção de tão alto nível feita por mulheres num Japão tão antigo. Não só a Sei Shônagon escrevia. Também a Murasaki Shikibu, Mitsunawa Haha (autora de nikki). A gente vê que o periodo Heian é um momento muito singular para a expressão feminina na cultura japonesa.  Depois isso desaparece e só reaparece na idade moderna, com tanta força.  Elas conseguiam escrever, por conta de oportunidades políticas.  As mulheres letradas eram importantes para os homens que desejavam ascender à Casa Imperial. Por isso, elas eram educadas nas letras, na música, na dançam na poesia.

Marilia Kubota é editora do MEMAI.