12 KINEMA | O SAMURAI DOS "FAROLESTES" DE KUROSAWA

O professor de literatura Klaus  Eggensperger  escreve sobre a figura do samurai japonês criada pelo cineasta Akira Kurosawa nos filmes Sanjuro e Yojimbo – personagens  que reúnem características heróicas masculinas do imaginário ocidental e oriental

Por Klaus Eggensperger

Sanjuro

Culturas aparentemente homogêneas como a cultura japonesa têm suas narrativas que contribuem para fundar, justificar ou modificar o imaginário coletivo. No Japão, a narrativa coletiva em torno do samurai, que se tornou um símbolo da masculinidade e da identidade nacional, teve seu auge na primeira metade do século passado. Visto sob uma perspectiva histórico-cultural, o samurai tem semelhante função do cavaleiro nobre da tradição medieval europeia, descoberta pelos escritores românticos, ou do westerner dos Estados Unidos dos séculos XIX e XX. O herói clássico do faroeste americano, que o público japonês chegou a conhecer bem depois da Segunda Guerra, com a influência cultural dos Estados Unidos, costumava se destacar não somente pela nobreza do coração, mas também pela aparência impecável, como por exemplo a de Alan Ladd em Shane, popularíssimo no Japão dos anos cinquenta.

A “samuraização” da sociedade japonesa é relativamente recente e seguiu fins específicos. Depois da derrota do imperialismo nipônico em 1945, essa narrativa transformou-se, perdeu a uniformidade, modernizou-se, foi parcialmente rejeitada, mas exerceu e continua exercendo grande influência sobre os inevitáveis discursos em torno daquilo que poderia ou deveria ser a identidade nacional. Logicamente, tem tudo a ver com gênero: o sujeito consequente, leal, enérgico, sempre sincero e fiel às regras que norteiam a honra e a probidade é o guerreiro, que incorpora a masculinidade agressiva, porém controlada, e encontra seu caminho na morte.

Takeshi Kitano, em uma entrevista dada ao semanário alemão Die Zeit por ocasião da estreia do seu filme Dolls em 2003, enfatiza a disposição da sociedade japonesa pela submissão total. Estabelece a analogia entre samurai, kamikaze, yakuza e os salary-men contemporâneos, completamente submissos aos motivos e códigos das suas empresas multinacionais. Kitano vê uma ligação entre o desenvolvimento da sociedade japonesa atual e o espírito samurai: “Estamos acostumados a ser submetidos. Antigamente foi o shogun que tinha o poder absoluto. Ele mandava, e seguia-se incondicionalmente. Até o fim da guerra, o tennô dominou da mesma maneira absolutista. Existe [no Japão] uma tradição secular de opressão, sendo impossível de se livrar disso dentro de algumas décadas.”

Akira Kurosawa contribuiu, com uma boa parte da sua obra, para a desconstrução da narrativa nacionalista do samurai. Esta observação vale também para Tsubaki Sanjūrō, de1962. De certa maneira, a obra é uma sequência de Yojimbo, grande sucesso de Kurosawa – também em termos comercias – do ano anterior. Em ambos os filmes, o ator Toshiro Mifune leva à tela um heroi pragmático e vulgar, que costuma mexer suas costas ou coçar-se, adora comida e bebida, e não desdenha o dinheiro depois da conclusão de um serviço, como um samurai ideal faria.

Já pela aparência decadente, pouco limpa, com barba por fazer e mal vestido , fica óbvio que o personagem segue normas diferentes daqueles de sua classe social, idealizadas no bushido.

Parecido com o westerner, no entanto, Sanjuro personifica a luta do indivíduo contra as partes corruptas da sociedade ou até contra todos, em caso de corrupção generalizada como em Yojimbo. Segue os compromissos e as obrigações em relação a si mesmo; é um indivíduo comprometido com seu código de honra particular. Mas, ao mesmo tempo, representa uma ética universal que a comunidade, em pleno processo de deterioração moral e dos costumes, já abandonou há muito tempo. Poderíamos chamá-lo de “heroi solitário”, se não fosseuma expressão um tanto redundante, visto que o heroi comopersonagem principal de uma narrativa literária ou cinematográfica sempre tem uma posição à parte. Distingue-se das pessoas comuns e é capaz de suportar exemplarmente uma sorte especial. Comparado com os heróis tradicionais, Sanjuro parece ainda mais situado à parte. Trata-se de um heroi japonês sem vínculos sociais, um forasteiro na própria cultura, que tradicionalmente valoriza o enquadramento do indivíduo no seu grupo. Aparece sem ter história, sem família e até sem nome; quando perguntado assistimos, nos dois filmes, a duas reações bem parecidas: o protagonista olha pela janela e inventa um nome inspirado pela natureza que vê, um campo de amoreiras ou  grandes arbustos de camélias. Assim, autodenomina-se “Kuwabatake Sanjūrō” (桑畑三十郎) em Yojimbo – “campo de amoras de trinta e três anos ” –, e em Sanjuro“Tsubaki Sanjūrō” (椿三十郎) – “árvore de camélia de trinta e três anos”.

Talvez possamos considerar Yojimbo um “faroleste”, um “eastern-western” com uma trama e uma linguagem fílmica influenciadas pelo faroeste de Hollywood, ao passo que Sanjuro é o filme menos influenciado pelo cinema ocidental. E vice-versa: não é por acaso que Yojimbo foi adaptado somente três anos mais tarde por Sérgio Leone (Per un pugno de dolari , “Por um punhado de dólares” de 1964), enquanto uma adaptação de Sanjuro seria muito mais difícil devido à sua temática tão japonesa: durante o tempo em o senhor feudal está ausente, um grupo de nove samurais luta contra uma conjuração numa cidade castelo típica do período Tokugawa. São jovens ingênuos, (fartos) enchidos do código de honra dos samurai, determinados pelo espírito grupal, mas incapazes de refletir como indivíduos, de fazer uso da própria razão. Sem Sanjuro, o ronin forasteiro que logo aceita o papel de seu líder, não sobreviveria nem os primeiro cinco minutos do filme. A partir desta constelação, emergem situações cômicas e, além de mostrar a sua habilidade como guerreiro, Sanjuro assume um papel de sensei mais velho e versado.

Em Sanjuro somos apresentados a samurais tradicionais e, portanto, “verdadeiros”, ou seja: samurais conforme a exigência do imaginário estabelecido, e não aqueles yakuza depravados de Yojimbo. Os nove jovens são tão simpáticos quanto estão presos ao espírito do grupo, seguindo sempre o líder, e manifestando assim um pensamento hierárquico e uma obediência coletiva cega que são ridicularizados. Mas o filme vai além da crítica à lealdade tradicional e a um código de honra sem sentido. Confronta um bando de imbecis com um indivíduo autônomo no sentido iluminista, onde autonomia significa a qualidade de um indivíduo de tomar suas próprias decisões com base na razão. O individualismo do ronin Sanjuro representa a subjetividade moderna contra a conformidade tradicional.

Enquanto no início prevalece a zombaria em torno da ingenuidade dos samurais jovens, no decorrer do filme o conflito torna-se mais sério. Kurosawa não somente trabalha com o mesmo protagonista de Yojimbo, mas também com o mesmo antagonista. O ator Tatsuya Nakadai interpreta Hanbei, samurai chefe da tropa do lado corrupto.

A partir desta constelação, desenvolve-se aparentemente a luta clássica do bem contra o mal. Contudo, Kurosawa relativiza esse antagonismo. No desenrolar do conflito fica claro que os dois personagens são complexos, com características parecidas. Hanbei pode ser calculista, não obstante, aposta abertamente na força das armas; Sanjuro parece bonachão, mas sabe fingir e mentir melhor do que qualquer outro. Entra no jogo de enganos e traições, que se desenrola desde a primeira sequência do filme. Dissimulador perfeito, consegue vencer e ferir o orgulho de seu antagonista. No final, em um dos duelos mais famosos da história do cinema, tenta evitar o confronto mortal, mas é tarde demais. “Ele foi como eu, uma espada nua que não conseguiu manter-se na bainha” – são as últimas palavras de Sanjuro a respeito de Hanbei.

O que superficialmente pode parecer um duelo clássico de western é um ritual marcado pela estética japonesa. Assistimos talvez à luta mais rápida na história do cinema: cada um dos dois oponentes faz um movimento rápido, desfere-se um golpe de espada relampejante, e tudo acaba. O enfoque está no silêncio anterior, na longa e tensa observação mútua antes de desembainhar a espada, com pouca fala e quase nenhum movimento, o que aumenta ainda mais a brutalidade do golpe final. Depois, ao fim de sua luta, Sanjuro decide apenas partir, recusando as homenagens pelo grupo dos jovens samurais. Na sua opinião, fora uma luta desnecessária, e a melhor espada seria sempre aquela que permanece na bainha.

Comparado ao mundo feminino de Mizoguchi ou aos dramas familiares de Ozu, o universo de Kurosawa é predominantemente masculino, com pouco espaço para a mulher. No entanto, apesar da centralidade da espada como símbolo fálico no filme, o seu protagonista incorpora uma masculinidade japonesa diferente daquelas encenadas até ali. É um personagem extremamente ambivalente: descontraído e atento, maquiavélico e honesto, matador e pacifista ao mesmo tempo. Personifica a utopia de um indivíduo forte que se impõe contra a lógica da submissão do grupo, sem perder, de outro lado, a orientação ética. Ao contrário: é o único que responde pelas regras e preceitos de ordem valorativa, abandonados pela comunidade . Com Yojimbo e Sanjuro, Kurosawa reinventou o gênero chambara,[1] contribuiu para a desconstrução da narrativa nacionalista em torno do samurai e, ao mesmo tempo, criou para a tela o personagem samurai mais icônico da história do cinema.

1] Chambara é o nome dado aos filmes de ação japoneses que tratam da era feudal no Japão. A palavra Chambara é uma gíria para filmes de espada. Os filmes chambura foram populares desde o começo da inústria fílmica no Japão.

Klaus Eggensperger é professor no Departamento de Letras Estrangeiras Modernas e na Pós-Graduação em Letras da UFPR.

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s