12 PALCO | A MÚSICA BRASILEIRA NO JAPÃO

O compositor Léo Nogueira escreve sobre o fascínio que a  música brasileira, em especial a bossa-nova,  exerce sobre os japoneses

Por Léo Nogueira

Loja de Ryosuke Itoh, proprietário da Tayo Records, que importa música brasileira.

O Oriente costuma exercer um fascínio sobre nós, ocidentais. Essa coisa da cultura milenar, do zen, da sabedoria acima da intelectualidade, enfim, tudo o que é ligado a esse universo que é tão diferente do nosso. E, dentro desse universo, o Japão ocupa um lugar de destaque em nosso imaginário. Eu, quando moleque, via-me muito ligado aos desenhos e séries japoneses que ilustravam minhas tardes, da mesma forma que muitos outros garotos que eu conheci partilhavam dessa minha ligação. A gente se divertia à beça só de imaginar cavar um buraco na terra pra sair no Japão.

Mas com o crescimento,  tal universo não nos abandona; há outros elementos que mantêm a ligação acesa, o cinema, a literatura, a poesia; saindo da arte há a tecnologia. Enfim, a Terra do Sol Nascente possui um ímã que nos atrai, apesar da diferença. Ou melhor, é justamente isso o que nos atrai, afinal, o magnetismo obedece à máxima “os opostos se atraem”. E é justamente  a respeito do outro lado da moeda dessa atração que eu gostaria de tratar neste texto. O encanto que o Brasil exerce sobre o Japão.

Tive o privilégio de viajar ao Japão em três oportunidades e senti na pele o carinho com que os japoneses nos tratam. Eles, que formam um povo sério, tradicional, trabalhador, por sua vez sentem-se fascinados pelo Carnaval, pela alegria e pela informalidade de nosso comportamento. Claro que há um pouco de exagero (e mesmo de mito) nisso, mas a recíproca também é verdadeira. O mais importante nisso tudo, porém, é a relação que eles  têm com nossa música.

Ouso afirmar que eles, por meio de pesquisas, acabam conhecendo mais acerca de nossa música que nós mesmos. Ao passo que nossos meios de comunicação divulgam e difundem a música comercial, descartável e maniqueísta, no Japão é comum, por exemplo, alguém entrar num McDonalds e ouvir Garota de Ipanema. Claro que, como eles são tradicionalistas, não vão muito além do consumo de nossa música já consagrada, principalmente a bossa nova e o samba, que têm presença garantida em muitos estabelecimentos de música ao vivo em todo o Japão, principalmente em Tóquio.

Quando alguns artistas brasileiros, como João Gilberto, Joyce, Marcos Valle, Carlos Lyra, entre outros, apresentam-se por lá, os ingressos se esgotam rapidamente. Muitos destes provavelmente têm mais público lá que aqui. O mais triste é que, como há um total desinteresse de preservação de nossa música por parte das gravadoras daqui, grande parte de nosso acervo vem sendo paulatinamente adquirido pela indústria discográfica japonesa. A continuar nesse ritmo, em poucos anos, quando algum estudante brasileiro fizer um trabalho sobre determinada época da música brasileira, terá que, fatalmente, pesquisar em sites japoneses.

CDs de João Gilberto, em japonês Foto de Alexandre Mauj.

Brasileiros e japoneses

O brasileiro tem em seu DNA a mistura. Por conta disso, apropria-se do que vem de fora e transforma em produto nacional. A música brasileira do século XXI é exemplo disso: pop, rock, reggae, bolero, salsa, tango e muitos outros ritmos e estilos musicais que aportaram por aqui foram rapidamente absorvidos e reincorporados a nossos ritmos populares. Artistas como Lenine, Djavan, João Donato e tantos outros são perfeitos exemplos dessa característica brasileira de apropriação. Com o Japão ocorre algo parecido, mas com resultado distinto. Pela característica cultural do próprio povo japonês o que vem de fora é, sim, executado e reverenciado, mas poucas vezes entra no processo de criação.

Portanto, quando entramos em contato com cantores ou instrumentistas japoneses que se dedicam à música brasileira, notamos que o repertório que executam é sempre o mesmo, ou seja, clássicos da bossa nova e, em menor escala, do samba. Esse excesso de respeito impede que eles recriem partindo do já criado. Claro que há exceções, mas são muito poucas e, na maioria das vezes, com resultado aquém do original. Um exemplo até engraçado: certa vez vi uma roda de samba lá, até tudo muito parecida com as nossas. A diferença era que todos os músicos, tocassem cavaquinho ou pandeiro, tinham a sua frente, em vez de copos de cerveja, estantes com partituras!

Mas o mundo está mudando e, com ele, o Japão (já escrevi sobre isso no texto As Mulheres do Japão, no meu blogue). Já há até desfiles de escolas de samba por lá! E, ainda que timidamente, outros ritmos brasileiros estão chegando à terra de Kurosawa, principalmente a música nordestina, e cada vez mais artistas da nova safra têm aterrissado no aeroporto de Narita. Em contrapartida, e como não poderia deixar de citar, hoje no Brasil há uma compositora japonesa que nada contra a corrente e traduz tudo o que aprendeu de música brasileira em canções próprias. Não vou me estender muito, pois podem achar que se trata de nepotismo, mas queria terminar dizendo àqueles que não conhecem que pesquisem sobre Kana Aoki, uma japa do barulho que, só por mera coincidência, há exatos doze anos leva meu sobrenome e mora em minha residência.

Será o fim do mundo?

Links

 

Léo Nogueira é compositor, com mais de 500 composições gravadas. Escreve no blogue  O X do Poema.

 

     

     

     

     

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