LITERATURA | Tradução Artesanal

Este artigo pretende investigar – como uma espécie de conclusão da investigação feita até aqui sobre os vários momentos distintos vividos pela tradução de escritores japoneses para o português – o que mais havia no país além do processo da tradução indireta (de idiomas como o inglês ou o francês), descrito no artigo de minha autoria na edição número 2 deste jornal. A tradução indireta era o processo que predominava nas grandes editoras durante boa parte do século XX, embora outros esforços estivessem também sendo delineados. E quais eram eles, visto que esta não era essa a única maneira através da qual um texto em japonês poderia se tornar acessível em português? O que acontecia, praticamente à margem do mercado editorial, nas editoras de pequeno porte e também nas edições elaboradas por particulares? Naquele momento, antes do advento da tradução direta como uma realidade mercadológica hegemônica (que ocorreu nos anos 90 e foi explicitada no meu artigo constante da edição número 1), havia também um movimento de expoentes da comunidade nipo-brasileira, e também de simpatizantes da língua e da cultura japonesas, no sentido de ampliar a gama de autores e títulos traduzidos, utilizando processos artesanais de tradução direta, contando com o auxílio de co-tradutores especializados na adequação dos textos ao português, quando a proficiência com este idioma de saída se tornava insuficiente. Desta forma, havia um movimento no sentido de traduzir textos e autores não comportados no limitado perfil de escritores selecionados pelo mercado para a publicação no país.

Investigar este processo de tradução é um pouco mais difícil do que recorrer aos títulos publicados por grandes editoras, devido ao fato de que muitas dessas iniciativas se constituíam em edições alternativas que tinham pequenas tiragens e não eram distribuídas em larga escala. Algumas poucas conseguiam o selo de uma editora de maior porte e a conseqüente visibilidade de mercado. A origem desses volumes era ainda, primordialmente, a comunidade nipo-brasileira. Um exemplo de um título sob a responsabilidade de um expoente da comunidade nipo-brasileira que conseguiu a chancela de uma editora comercial é a coletânea de contos Maravilhas do conto japonês, organizada por Antonio Nojiri e publicada pela Cultrix.


Percebe-se o esforço conjunto na elaboração deste volume pelo elenco de tradutores, constituído por alguns nomes de peso na publicação de títulos com temática japonesa, como, por exemplo, José Yamashiro. Além dele e do próprio organizador desta edição, há ainda, Albertino Pinheiro Júnior, Fuyou Koyama, Henrique Santo, Katsunori Warisaka, Konoske Oseki, Shinobu Saiki, Tejiti Suzuki e Yoshihiro Watanabe, totalizando 22 contos para 11 tradutores. O tradutor e poeta José Paulo Paes (falecido em 1998) e Rolando Roque da Silva completaram o quadro de tradução, como co-tradutores. Na coletânea, cada nome destes foi o responsável pela tradução de dois destes contos, tendo, provavelmente, a supervisão dos assim chamados co-tradutores no processo de revisão de tradução, que homogeneíza o tom do livro como um todo e resolve problemas específicos de tradução, como a utilização de certos verbetes, os falsos cognatos, e assim por diante.

Outro exemplo de um livro obtido em português através de um esforço coletivo de tradução é Relato autobiográfico, de Akira Kurosawa, traduzido por Rosane Barguil Pavam, Marina Naomi Yanai Heitor Ferreira da Costa e Izabella Sanches. Ao invés de partir apenas de um único idioma como ponto de partida para o processo de tradução, estão listadas três edições, a japonesa Gama no abura, de 1984; a norte-americana, Something like an autobiography, 1982; e a francesa, Comme une autobiographie, de 1985. Há ainda a indicação dos cotejos das edições japonesa e francesa. Assim, fica um tanto nebuloso reconstituir como se deu o processo de tradução neste caso específico apenas por essas informações. Em que medida cada tradutor contribuiu para o resultado final do texto em português, e como foi o processo de trabalho entre eles? Em que proporção o texto original (em japonês, embora a sua edição seja posterior) e as duas traduções anteriores (para o inglês e o francês) se constituíram em texto de entrada para o texto final, traduzido para o português?

Duas traduções de contos do escritor Ryūnosuke Akutagawa surgiram até o início dos anos 90. A primeira delas é Rashōmon e outros contos, que foi traduzida pelo já citado Antonio Nojiri (organizador da coletânea Maravilhas do conto japonês), provavelmente uma tradução direta. O livro foi editado por Massao Ohno, na série Clássicos orientais vol. 1. É um típico exemplo de edição artesanal. A segunda tradução, intitulada Rashōmon e outras histórias, é uma tradução a partir do original em japonês, efetuada pelas professoras da USP Madalena Hashimoto e Junko Ota. Esta edição foi publicada pela ditora Paulicéia e já antecipa o processo de tradução direta subseqüente, que surgiu com maior força a partir da publicação da versão traduzida de Musashi, em dois volumes, respectivamente, em 1998 e 1999.


O escritor, poeta, ensaísta e tradutor autodidata Paulo Leminski foi um entusiasta da cultura japonesa que também se aventurou na tradução de um escritor japonês, Yukio Mishima. Ele traduziu o romance Sol e aço em 1985. A aproximação de Leminski com a cultura e a língua japonesa se deu através do judô, que o tocou tanto pela filosofia quanto pelo aspecto físico. A partir desse momento, ele lê muitos autores japoneses, iniciando-se primeiramente no Zen budismo, tais como Alan Watts, Teitarō Suzuki e Thomas Merton. Ele também se interessou por livros de poesia oriental, que emprestava da Biblioteca Pública do Paraná. Para melhor compreender os ideogramas, que o fascinavam pelo seu poder de síntese, conta-se que Leminski roubou uma bíblia traduzida para o japonês da mesma instituição, e que a utilizava também como fonte de consulta. Este fato é narrado por Toninho Vaz na biografia O bandido que sabia latim. Leminski traduziu obras do latim, do inglês e também do japonês. Como poeta, Leminski também se aproximou do haicai, subvertendo-o ao ambiente urbano de Curitiba e seus bares, e escreveu a biografia de Matsuo Bashō.

Outro escritor paranaense que se aproximou da cultura japonesa e contribuiu para a difusão de um conto tradicional foi Valêncio Xavier. Ele escreveu ‘O mistério da prostituta japonesa” e fez uma versão do conto tradicional japonês “Mimi nashi Hōichi”, que pode ser traduzido como “Hōichi sem orelhas”. Durante a pesquisa que resultou nestes dois textos, o escritor fez uma aproximação com a comunidade japonesa, tomando conhecimento de algumas lendas tradicionais e também aprendendo um pouco da grafia japonesa, tanto no que se refere aos dois alfabetos fonéticos, hiragana e katakana, quanto aos ideogramas iniciais. No primeiro conto, Valêncio insere uma prostituta japonesa, personagem que suscita fascínio no protagonista ao falar em japonês com ele, transformando-se em um enigma. Este conto se tornou o mote para uma adaptação fílmica, realizada por Beto Carminatti em 2005. O segundo conto apresenta um diálogo através do qual um dos personagens narra a história de Hōichi, um menestrel, um contador de histórias que cantava narrativas japonesas ao som do instrumento de corda japonês biwa. Em algumas versões, como na de Valêncio, ele é um noviço, mas em outras, ele vive no mosteiro, mas é leigo, não um aspirante a monge. Valêncio chama o personagem de “Oichi”, abrasileirando e alterando tanto a escrita quanto a pronúncia do nome.


Todas essas iniciativas de tradução direta artesanal, oriundas da própria comunidade japonesa, visam suprir à necessidade de visibilidade dessa mesma comunidade na realidade brasileira, antes mesmo que o mercado editorial nacional se desse conta do valor intrínseco da literatura japonesa, que vai muito além do âmbito do exótico e da diferença cultural.

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