HISTÓRIA | Desbravadores ou Ameaça Social

Os Imigrantes Japoneses na Segunda Guerra Mundial: Bandeirantes do Oriente ou perigo amarelo no Brasil – Eduel, de Elena Shizuno, 208 páginas, Eduel.

Durante a 2ª. Guerra Mundial os nipo-brasileiros se viram acuados no Brasil. De um lado, o governo brasileiro restringia suas liberdades civis devido ao clima de tensão contra os países do Eixo. De outro, os “fanáticos” do governo japonês criaram associações de caráter nacionalista para defender valores do patriotismo japonês. Os imigrantes, pequenos agricultores, artesãos ou comerciantes, eram presos pela Polícia Política, suspeitos de agirem como espiões do governo japonês. Ao mesmo tempo, sofriam achaques de compatriotas, suspeitos de “prejudicarem o esforço de guerra” japonês.

A dupla opressão é o que relata esta pesquisa feita pela historiadora Elena Shizuno, que investiga a a ambigüidade das expressões “Bandeirantes do Oriente” ou “Perigo Amarelo” – em opiniões registradas pelas elites brasileiras, sobre os imigrantes japoneses nos anos 40. . De um lado, um sentido aparentemente positivo do imigrante como desbravador do território, colonizador, similar aos bandeirantes paulistas. De outro, uma ameaça, segundo a estigmatização eugenista, em vigor desde o início da imigração japonesa.

Nesta última representação, os japoneses eram vistos como “súditos” de uma potência imperialista. Nesta pesquisa, dissertação de mestrado pela Universidade Federal do Paraná, Elena pergunta por que o racismo, transformado em política oficial no Brasil a partir de 1934 organizou o ódio contra o imigrante – visto como o “Outro”, ou seja, o diferente.

Antecedendo os fatos: durante o processo de imigração, uma ampla discussão nos jornais apresentava a face de “um país que ser queria europeu, branco e católico, governado por brancos e para brancos”, segundo palavras da professora Marion Brepoh de Magalhães, que faz a apresentação da obra. Por isto, alguns membros da elite opunham-se radicalmente contra a entrada dos imigrantes japoneses.

Artigos e caricaturas na imprensa vinculavam aos japoneses termos pejorativos como “amarelos”, “viciados”, “decadentes”, “imorais”. Os eugenistas defendiam a tese de que o japonês era “inassimilável” – ou seja, jamais se tornaria idêntico ao tipo brasileiro.

Quando o governo brasileiro declara guerra aos países do Eixo, os imigrantes japoneses, alemães e italianos passam a ser vistos com desconfiança, suspeitos de colaborar com seus países origem. Proibidos de se reunir publicamente, não podem falar, ler jornais ou ouvir rádio em sua língua nativa. E começam a ser vigiados de perto pelo DOPS – Departamento de Organização Política e Social.

Examinando estas fichas, a pesquisadora descobriu que alguns japoneses sofreram acusações absurdas, como falar japonês, educarem os filhos em japonês, ouvir música japonesa.

A repressão desencadeou uma reação interna nas comunidades nipo-brasileiras. A desinformação causou o isolamento da comunidade e tornou propício o surgimento de organizações como a Associação dos Jovens Japoneses (Akenobo). Esta organização, de caráter fascista, buscava representatividade como “autoridade” dentro da comunidade, criando boatos como o de que o hortelã pimenta era matéria prima para fabricação da bomba atômica. Deste modo, aterrorizava os agricultores queimando suas plantações. A verdade é que antes da 2ª. Guerra, os Estados Unidos importavam hortelã e seda do Japão e da China. Durante o conflito bélico, a matéria prima passou a ser importada do Brasil. Para os nacionalistas japoneses, os lavradores de hortelã e seda eram vistos como inimigos.

Com o fim da guerra, a Akenobo e associações similares foram a semente para a criação da Liga dos Súditos do Imperador (Shindo Renmei). A organização, inspirada em ideologia nazista, dividiu a comunidade em “vitoristas” e “derrotistas”. Os primeiros, os kachi-gumi, acreditavam na vitória do Japão na guerra. Já os make-gumi sabiam da derrota. Os crimes cometidos pelos vitoristas contra os derrotistas pioraram a imagem da comunidade nipo-brasileira nos jornais brasileiros.

A pesquisa de Elena alinha-se ao lado de análises de historiadores como Rogerio Denzen e Jeffrey Lesser, Claudio Seto e Maria Helena Uyeda para reconstituir páginas negras de uma história perversa. Estes episódios não devem ser vistos como um quisto num enclave étnico. Mas parte de uma história recente do Brasil, conseqüência de medidas tomadas contra as liberdades individuais de grupos vindos ao país na condição de colonos.

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